Saber reconhecer a doença

Será que sabe mesmo tudo o que precisa saber sobre DPOC?

Atualizado: 
10/02/2021 - 12:40
É uma das patologias respiratórias mais frequentes e a 3ª causa de morte no mundo – a Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica afeta cerca de 750 mil portugueses, mas admite-se que existam outros tantos casos por diagnosticar. As suas queixas “podem ser ligeiras e facilmente desvalorizadas pelas pessoas que não lhe dão a devida relevância”, justifica João Cravo, especialista em Pneumologia no Serviço de Pneumologia do Centro Hospitalar do Baixo Vouga e coordenador geral do livro “Saiba mais sobre DPOC”, lançado recentemente.

O tabagismo é o principal fator de risco para o desenvolvimento da Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica, uma patologia “caracterizada por inflamação brônquica que condiciona uma obstrução persistente e progressiva à passagem do ar pelas vias respiratórias” e que se estima que afete entre 700 a 800 mil portugueses. Segundo o pneumologista, João Cravo, “90% dos doentes com DPOC são ou foram fumadores”, pelo que nunca é demais apelar à sua evicção. É que, tal como explica o especialista, esta é uma doença evitável. “É possível - e fácil - não fazer parte dos vários portugueses que têm a doença. Por isso, as pessoas devem deixar de fumar ou preferencialmente evitar começar”, recomenda.

Por outro lado, sabe-se que a poluição ambiental pode condicionar o seu desenvolvimento, bem como a exposição ambientes tóxicos por via da atividade profissional. “Quem trabalhar com exposição a fumos ou poeiras deve usar máscaras de proteção respiratória - com as quais já estamos a ficar familiarizados com esta pandemia. Pode-se também prevenir a doença diminuindo o tempo de exposição a fumos de lareiras ou fogões de lenha em ambientes fechados e não ventilados”, acrescenta o especialista quanto às medidas preventivas.

Entre os principais sintomas da doença, João Cravo chama a atenção para a “tosse e expetoração crónica quase diária pelo menos nos meses de Inverno – o famoso catarro; o cansaço fácil, que se traduz em sensação de “falta de ar”, no início para grandes esforços, mas que evolui ao longo dos anos para esforços cada vez mais pequenos, ou pelo aparecimento de uma respiração mais ruidosa”. É que, ainda que esta seja uma doença muito incapacitante, pode apresentar queixas ligeiras, facilmente desvalorizadas por quem delas padece. Por isso, o especialista sublinha o quão importante é estarmos atentos. Esta é uma “doença que limita progressivamente a qualidade de vida dos doentes. A medida que as pessoas se vão sentindo mais cansadas sem se darem conta, vão diminuindo cada vez mais a sua atividade”. Além disso, esta aumenta o risco de infeções respiratórias, tornando-as mais frequentes, e que agravam o estado geral de saúde do doente.

“Um diagnóstico precoce permite identificar mais rapidamente os doentes e desse modo permitir controlar a doença, estabilizando a perda de função pulmonar. Um doente sem diagnóstico é um doente sem o acompanhamento e tratamento adequados, o que leva a maior risco de uma exacerbação. Por sua vez, essa exacerbação é o maior fator de risco para outra exacerbação”, explica João Cravo.

De acordo com o médico pneumologista, o diagnóstico “depende de três pontos fundamentais: a presença de sintomas e a existência de fatores de risco compatíveis que motivem a realização de uma espirometria, que é um exame que permite avaliar de forma simples a função respiratória do doente. A presença de certos critérios nesse exame permite confirmar o diagnóstico.”

Quanto ao seu tratamento, João Cravo explica que este é feito pela complementaridade das terapêuticas farmacológicas e não farmacológicas, onde se inclui não só um estilo de vida saudável, mas também vacinação contra a gripe e pneumonia, tão importante para estes doentes.

“Em relação aos fármacos, (o tratamento) baseia-se principalmente em inaladores, que permitem fazer chegar o medicamento diretamente nas vias aéreas. Em casos selecionados, podem ser complementados com outros tratamentos orais, como o roflumilast ou a azitromicina. O oxigénio ou a utilização de ventilação não invasiva são normalmente utilizados apenas em situações mais graves”, esclarece.  

Quanto ao tratamento não farmacológico, João Cravo sublinha que “a vacinação, manutenção de um estilo de vida saudável, a evicção de fatores de risco e, caso aplicável, a sua inserção em programas de reabilitação respiratória, tem um papel fundamental na saúde destes doentes”. E justifica: “uma pessoa que pratique exercício físico conseguirá manter melhor capacidade muscular e um nível de condicionamento físico que ajuda o corpo a manter uma respiração eficaz”. Por outro lado, adianta que “sendo as infeções um dos principais motivos para descompensar o controlo da DPOC, a vacinação contra a gripe, pneumonia, e não só, permitem prevenir possíveis fatores de agudização da doença”.

Em plena pandemia, o médico relembra que os riscos são maiores, pelo que todas as medidas de prevenção devem ser levadas a sério e cumpridas escrupulosamente. “O SARS-CoV2 é um vírus respiratório e que pode provocar, como infelizmente sabemos, quadros com grande repercussão a nível pulmonar, nomeadamente com a chamada pneumonia viral e a insuficiência respiratória associada. Uma vez que já existe na DPOC algum grau de atingimento, e sendo a infeção um fator de risco importante, existe o perigo do acometimento provocado pela doença seja mais sentido ou de que possa despoletar uma agudização da DPOC”, explica o pneumologista que recomenda: “distanciamento social, as medidas de higiene e a vacinação assim que possível. Sem esquecer o cumprimento da medicação da DPOC”.

“A DPOC é uma doença respiratória crónica e que não tem cura. É um facto que não podemos esconder, no entanto, há algo que deve ser dito e sublinhado: É possível viver bem com a DPOC”, reforça João Cravo. “A receita é simples: se tem DPOC, deixe de fumar ou use proteção no trabalho, cumpra a medicação e siga os conselhos que referi anteriormente”, conclui.

Autor: 
Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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