Opinião

A Relevância da Enfermagem na Construção de Uma Só Saúde

Atualizado: 
12/05/2026 - 08:16
A celebração do Dia Internacional do Enfermeiro (DIE) de 2026, sob o lema “Enfermeiros empoderados salvam vidas” proposto pelo Conselho Internacional de Enfermeiros (ICN), surge num momento crítico em que a saúde global enfrenta desafios sem precedentes, como as alterações climáticas e a necessidade de sistemas de saúde mais resilientes (Ordem do Enfermeiros, 2026).

Este empoderamento, que pressupõe autonomia, influência e liderança, constitui uma oportunidade fundamental para aprofundar a compreensão do conceito de "Uma Só Saúde" e da sua aplicação urgente nos desafios contemporâneos da Saúde Pública. Esta abordagem define-se como um esforço integrado que visa equilibrar e otimizar, de forma sustentável, a saúde de pessoas, animais e ecossistemas (Food and Agriculture Organization of the United Nations et al., 2022). A relevância deste paradigma é indiscutível num contexto global onde se estima que cerca de 60% das doenças infecciosas emergentes sejam de origem zoonótica, evidenciando que a saúde humana está intrinsecamente ligada à saúde animal e à integridade dos habitats que partilhamos (Melvin, 2020). Apesar do debate em torno de One Health destacar habitualmente as ciências biológicas e veterinárias, os fundamentos deste conceito remetem à origem da Enfermagem. A Teoria Ambientalista de Florence Nightingale, formulada no século XIX, enfatiza que a saúde depende da gestão rigorosa de determinantes ambientais como o ar puro, a água potável, a drenagem e a limpeza (Fernandes et al., 2026). Para Nightingale, a função do enfermeiro ia além da assistência direta ao doente, devendo ser uma gestão ativa das condições ambientais e ecossistémicas que permitem à natureza exercer o seu papel vital na recuperação da saúde. Esta herança prova que a enfermagem, na sua evolução, nunca se afastou do ambiente como fator essencial na abordagem aos indivíduos e comunidades (Barreira, 2025).

A Enfermagem apresenta uma posição única e central para a implementação da abordagem One Health, uma vez que os enfermeiros constituem uma força significativa de trabalho dos sistemas de saúde (Barreira, 2025). Esta particularidade transforma a profissão num fator crucial para a sustentabilidade e o funcionamento das estruturas de saúde, sendo indispensável o seu contributo para ganhos em saúde globais e segurança sanitária (Barreira, 2025). A atuação dos enfermeiros neste paradigma está, por esse motivo, diretamente relacionada com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 das Nações Unidas. Ao atuar sobre as interdependências entre a saúde humana, animal e dos ecossistemas, a enfermagem promove o bem-estar individual e contribui para a estabilidade social e o desenvolvimento económico global (Barreira, 2025). O enfermeiro é frequentemente o primeiro profissional de saúde a ter contacto direto com as pessoas, o que lhe permite assumir um papel fundamental na identificação de casos de doenças transmissíveis e na vigilância epidemiológica (Barreira, 2025). Esta intervenção estende-se a diversas áreas de especialização que já operacionalizam o conceito no quotidiano, como é o caso da Enfermagem de Saúde Comunitária e de Saúde Pública, que assume a liderança na monitorização de doenças de origem animal e na implementação de programas de imunização, e para além disto, capacita as populações quanto aos riscos presentes na sua envolvente (Barreira, 2025; De los Santos et al., 2025). Um exemplo desta atuação na interface humano-animal-ambiente encontra-se no controlo da resistência aos antimicrobianos. Os enfermeiros desempenham um papel decisivo na educação dos cidadãos para o uso responsável de antibióticos e na vigilância da eficácia terapêutica, protegendo a eficácia destes recursos e evitando a contaminação dos solos e águas com resíduos farmacológicos (Fernandes & Vareta, 2025; Food and Agriculture Organization of the United Nations et al., 2022). Esta prática exige uma colaboração entre profissionais, reconhecendo que tanto enfermeiros de saúde humana como médicos e enfermeiros veterinários oferecem perspetivas valiosas e complementares na prevenção de surtos zoonóticos (Melvin, 2020).

A evolução da vigilância em saúde no paradigma One Health beneficia do contributo da informática na enfermagem, visto que os dados recolhidos diariamente pelos enfermeiros, tanto em contextos clínicos como comunitários, ajudam a fundamentar políticas, guiar intervenções e avaliar resultados em saúde ao desenvolver, de forma estruturada, estes sistemas de vigilância integrados (Fernandes et al., 2026; Peltonen et al., 2023). O desenvolvimento de plataformas digitais partilhadas permite cruzar dados da saúde humana, animal e ambiental, transformando a observação isolada numa visão global e atenta à circulação de agentes patogénicos (Barreira, 2025). A nível nacional, a criação de estruturas como o Sistema Integrado de Vigilância de Zoonoses exemplifica como a integração de informações intersetoriais melhora a deteção precoce e a capacidade de resposta a diversas ameaças sanitárias (Barreira, 2025). Através da investigação e da literacia em informática, a enfermagem apoia diretamente os decisores políticos na priorização de recursos, fortalecendo a construção de sistemas de saúde globalmente sustentáveis (Peltonen et al., 2023).

Para que o contributo da enfermagem seja plenamente aproveitado, é imperativo que os enfermeiros participem ativamente nos processos de decisão e na formulação de políticas públicas de saúde, integrando o seu conhecimento prático sobre a interface pessoa/ambiente no desenho de estratégias nacionais (Barreira, 2025). No entanto, este contributo enfrenta ainda uma invisibilidade estratégica e barreiras na formação académica, onde os princípios de "Uma Só Saúde" raramente são integrados de forma explícita nos currículos (Fernandes & Vareta, 2025). Dessa forma, é de extrema importância uma reestruturação curricular que inclua o referencial One Health nas licenciaturas de enfermagem, preparando os futuros profissionais para liderar equipas transdisciplinares (Barreira, 2025; Fernandes & Vareta, 2025).

Além disso, a intervenção da enfermagem sob o prisma de “One Health” deve ser orientada para a equidade. As alterações climáticas e a degradação dos ecossistemas não afetam todas as populações de forma igual, as comunidades mais vulneráveis são as que sofrem com maior intensidade os efeitos de ambientes degradados e desastres ambientais (Delisle et al., 2026). Garantir que as intervenções reduzam as disparidades de saúde e protejam os grupos marginalizados é um pilar da justiça social que a enfermagem comunitária deve liderar (De los Santos et al., 2025). Como defende o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, a saúde deve ser tratada como um bem comum indivisível, exigindo que o dever de cuidar se estenda à preservação da harmonia entre todos os seres vivos e o ambiente (Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, 2023). Esta visão é reforçada pelas novas definições do Conselho Internacional de Enfermeiros, que clarificam que a prática profissional inclui a promoção de ambientes físicos e sociais seguros e a advocacia pela saúde em todas as políticas (White et al., 2025).

Em conclusão, o lema “Enfermeiros empoderados salvam vidas” materializa a premissa de que reconhecer a enfermagem como pilar estratégico do paradigma "Uma Só Saúde" não é apenas uma questão de valorização profissional, mas uma necessidade vital para a construção de sistemas de saúde resilientes. Como reforçado pelo ICN e pela Ordem dos Enfermeiros, o verdadeiro empoderamento consiste na eliminação de barreiras que impedem os enfermeiros de utilizar plenamente os seus conhecimentos para enfrentar crises sanitárias e climáticas com autonomia e influência. Ao unir a herança de Nightingale à inovação tecnológica, à liderança política e ao compromisso inalienável com a equidade, a enfermagem afirma-se como a força capaz de transformar estratégias globais em realidades locais vividas junto de cada cidadão. Atuar na interface entre o ser humano e o seu meio envolvente com o devido reconhecimento e recursos é, atualmente, o caminho essencial para garantir um futuro saudável e sustentável para as gerações vindouras.

Referências Bibliográficas

Barreira, L. F. (2025). “One health”: Contributos da Ordem dos Enfermeiros. In L. M. de Almeida (Ed.), As ordens e a "One Health (1.a ed., pp. 25–33). Ordem dos Médicos.

Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida. (2023). “One Health”: Um Planeta, Uma Saúde, Uma Ética.

De los Santos, J. A. A., de Vera, K. L., Barcelo, J. M. C., & Musa, S. S. (2025). The role of nurses in One Health: A public health nursing perspective. Annals of Tropical Research47(2), 354–365. https://doi.org/10.32945/atr47222.2025

Delisle, H., Ingabire, A., Søvold, L., & Vissandjee, B. (2026). Interventions for health equity with a One Health focus: a review of reviews. Frontiers in Public Health14. https://doi.org/10.3389/fpubh.2026.1736987

Fernandes, J. B., Fernandes, S., Castro, C., & Vareta, D. (2026). Tracing the roots of One Health principles in nursing practice. One Health22. https://doi.org/10.1016/j.onehlt.2025.101306

Fernandes, J. B., & Vareta, D. (2025). Can nursing strengthen one health initiatives? One Health21. https://doi.org/10.1016/j.onehlt.2025.101288

Melvin, S. (2020). Linked Together: One Health. Trends in Veterinary Nursing.

Ordem do Enfermeiros. (2026, April 9). “Enfermeiros empoderados salvam vidas” é o lema do Dia Internacional do Enfermeiro 2026. https://www.ordemenfermeiros.pt/noticias/conteudos/lemadie2026icn/

Peltonen, L. M., O’Connor, S., Conway, A., Cook, R., Currie, L. M., Goossen, W., Hardiker, N. R., Kinnunen, U. M., Ronquillo, C. E., Topaz, M., & Rotegård, A. K. (2023). Nursing Informatics’ Contribution to One Health. Yearbook of Medical Informatics32(1), 65–75. https://doi.org/10.1055/s-0043-1768738

White, J., Gunn, M., Chiarella, M., Catton, H., & Stewart, D. (2025). Renewing the Definitions of “Nursing” and “a Nurse” Final Project Report.

 

Autores: Beatriz Silva & Tiago Alves, estudantes do 4º ano do Curso de Licenciatura em Enfermagem da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra em Ensino Clínico na Unidade de Cuidados na Comunidade de Pombal (UCC Pombal), sob orientação do Enfermeiro Pedro Quintas e da Enfermeira Graciete Ponte

 

Nota: 
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