Preconceitos, mitos e factos sobre a perturbação Borderline

Mas como estão as coisas no mundo da Psiquiatria e da Psicologia? Infelizmente, numa parte, esta doença ainda é mal compreendida, mal diagnosticada e maltratada. Assim como têm sido as pessoas que dela sofrem.
As razões são várias. A mais imediata prende-se com o facto de a doença ser mal conhecida. É necessário perceber como se conceberam os critérios necessários para o seu diagnóstico. Saber que ela esteve entrincheirada numa guerra entre a Psiquiatria e a Psicanálise. Saber que se conhecem melhor os mitos que a envolvem do que os factos que a sustentam.
Outra das razões é de natureza emocional. Creio que não exagero se afirmar que a maioria dos psiquiatras e dos psicólogos não gosta desta doença, ou melhor, das pessoas que são vítimas dela.
Foi criada a fama de que este transtorno não é uma verdadeira doença, mas sim aquilo que se designa por “Perturbação da Personalidade”, um termo que induz reações emocionais negativas em muitos psiquiatras e psicólogos e também noutros técnicos de saúde mental. Foi igualmente criada a fama de que não tem cura, nem que existem tratamentos eficazes, o que não é verdade.
Por todas estas razões, é já tempo de dar a conhecer esta doença, de desmistificar mitos, preconceitos e mal-entendidos que a têm envolvido, e ainda – o mais importante de tudo – de podermos conhecer melhor as pessoas que têm sido afetadas em todo este processo, de modo a que, todos nós, possamos dar um contributo para as libertarmos. Elas precisam da ajuda de todos porque, além de estigmatizadas, estão reféns das suas próprias emoções.
Vejamos alguns mitos e factos sobre esta doença:
Mito: É uma Perturbação da Personalidade – os comportamentos são manifestações de traços de personalidade desadaptativos; Facto: É uma doença.
Mito: Manifesta-se a partir dos 18 anos; Facto: Pode manifestar-se – ou ter início – na adolescência ou até mesmo na infância.
Mito: É rara; Facto: É mais frequente do que a esquizofrenia e a doença bipolar. O problema é que é uma condição que, por várias razões, tem sido subdiagnosticada e mal diagnosticada.
Mito: As pessoas que têm a Perturbação são conflituosas, manipuladoras, sedutoras e têm mau carácter; Facto: Estas não são características da doença. Uma pessoa conflituosa, manipuladora, sedutora e com mau carácter não é sinónimo de ter Borderline.
Mito: Fazem tentativas de suicídio como forma de chamar a atenção – não querem mesmo morrer); Facto: A ideia de morrer está quase sempre presente. 10% das pessoas com esta perturbação morrem por suicídio.
Mito: Provocam clivagens nos grupos onde se inserem, nomeadamente nas Equipas Terapêuticas; Facto: Não provocam clivagens, mas podem tornar evidentes as já existentes.
Mito: É causada por experiências patogénicas ocorridas na infância; Facto: As causas são múltiplas, variadas e multideterminadas.
Mito: Não existe um tratamento eficaz; Facto: Existem várias terapias eficazes.
Estas e outras ideias são desenvolvidas em Borderline – Dos Casos Clínicos às Estratégias Terapêuticas (PACTOR Editora).
Autor: João Carlos Melo - Médico Psiquiatra, Psicoterapeuta e Grupanalista; Coautor do livro Borderline - Dos Casos Clínicos às Estratégias Terapêuticas (PACTOR Editora)
