Opinião

Portugal reforça o bloqueio ao jogo online: um problema que cabe no bolso

Atualizado: 
28/10/2026 - 07:03
“Doutora, eu nem saio de casa para jogar.”. E é precisamente esse o problema.

Portugal vai reforçar a detecção de sites ilegais de jogo online através de uma plataforma tecnológica contratada pelo Turismo de Portugal/SRIJ. O sistema deverá identificar operadores ilegais e sinalizá-los para eventual bloqueio, mantendo a validação humana pelo regulador. Até ao final de 2025, o regulador tinha já promovido o bloqueio de 2.747 sites ilegais.

É uma medida importante.

Mas, em consulta, o problema começa muitas vezes antes da pergunta: “este site é legal?”.

“Entrei só para ver o resultado.”. “Perdi e quis recuperar.”. “Quando dei por mim eram quatro da manhã.”. “Nessa semana voltei várias vezes”. “Só jogo quando estou ansioso.”.

Durante décadas, jogar exigia uma sequência de decisões: ter ou arranjar um tempo livre, sair, deslocar-se, entrar num espaço, trocar dinheiro, permanecer ali, estar ausencia de casa ou do trabalho – e essa ausência ser notada. Hoje, entre o impulso e a aposta pode existir apenas um movimento do polegar.

“Estava a jogar na sala de espera antes de entrar e, enquanto falo consigo, estou a acompanhar o jogo”. “Estive a jogar durante uma reunião de trabalho.”. “A minha mulher achava que eu estava a dormir.”. “Estava ao lado dos meus filhos no sofá. Mas, na verdade, não estava ali.”.

O jogo online tem uma característica particularmente poderosa: reduz a fricção. Está disponível quando estamos cansados, sozinhos, ansiosos, alcoolizados ou simplesmente aborrecidos. Está disponível à secretária, deitado na cama, à mesa com a família e na consulta com a psiquiatra.

Jogar antes de entrar na consulta ou durante a consulta não é uma excentricidade rara como se poderia pensar. E isso diz-nos muito sobre o que mudou. A acessibilidade permanente é precisamente uma das características que aumenta o risco associado ao jogo online: pode jogar-se praticamente em qualquer lugar e a qualquer hora.

As pessoas continuar a estar em família, “vêem series no sofá com os filhos”, estão na cama quando é suposto dormir e não faltam ao emprego.

E há uma armadilha clínica fascinante e cruel: no jogo, o comportamento que criou o problema financeiro apresenta-se como solução para o próprio problema. “Só preciso de recuperar o que perdi.”. Chama-se o perseguir as perdas. As perdas não levam necessariamente a parar - pode gerar urgência para continuar. A dívida transforma-se na principal motivação.

Por isso, bloquear operadores ilegais é uma protecção. Nestes espaços podem faltar precisamente os mecanismos de controlo e segurança exigidos aos operadores regulados.

Mas há uma distinção importante: ser ilegal não torna automaticamente um jogo mais aditivo. E ser legal não o torna inofensivo.

Uma plataforma pode cumprir todas as regras e continuar a ser perigosa para uma pessoa com perturbação do jogo.

A tecnologia pode bloquear uma porta. E ainda bem.

Mas, quando o casino já se instalou no circuito de recompensa, precisamos de perceber porque é que aquela pessoa continua a querer entrar.

 

Autor: 
Dra. Maria Moreno - médica Psiquiatra @mariamoreno.medicapsiquiatra
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.