Opinião

A PHDA para além do comportamento observável: os desafios do desenvolvimento neurocognitivo

Atualizado: 
02/06/2026 - 20:16
A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) continua, frequentemente, a ser reduzida a uma tríade de manifestações comportamentais: desatenção, hiperatividade e impulsividade. No entanto, esta visão simplificada não traduz a complexidade neurocognitiva associada a esta perturbação do neurodesenvolvimento.

A investigação neuropsicológica das últimas décadas tem demonstrado que a PHDA envolve alterações significativas em diferentes domínios cognitivos, particularmente ao nível das funções executivas — processos mentais responsáveis pela capacidade de planear, organizar, regular comportamentos, gerir emoções e adaptar respostas às exigências do contexto.

Estas alterações têm repercussões profundas no quotidiano. Muitas crianças com esta condição apresentam dificuldades na memória de trabalho, isto é, na capacidade de manter e manipular informação durante curtos períodos de tempo. Esquecem instruções dadas há poucos minutos, perdem materiais escolares, têm dificuldade em concluir tarefas sequenciais e mostram um desempenho inconsistente, frequentemente confundido com desinteresse ou falta de esforço.

A atenção sustentada encontra-se igualmente comprometida. Permanecer focado durante períodos prolongados exige um esforço significativamente maior, sobretudo em tarefas repetitivas ou pouco estimulantes. Consequentemente, estas crianças distraem-se facilmente com estímulos irrelevantes, alternam frequentemente entre atividades e revelam dificuldades em manter rotinas estáveis.

Outro domínio particularmente afetado é o controlo inibitório, responsável pela capacidade de travar impulsos, adiar respostas imediatas e ponderar consequências antes de agir. Esta limitação pode manifestar-se em interrupções constantes, dificuldade em esperar pela vez, respostas precipitadas ou reações emocionais intensas. Muitas vezes, apenas após o comportamenteo é que a criança reconhece que foi inadequado, não tendo conseguido inibir a resposta no momento.

As dificuldades de planificação e organização são também muito frequentes. Tarefas aparentemente simples, como preparar a mochila, organizar materiais, estudar para um teste ou cumprir horários, podem transformar-se em experiências altamente frustrantes para a criança e para a família.

A PHDA afeta ainda a autorregulação emocional e motivacional. Pequenos contratempos podem desencadear reações desproporcionadas, sentimentos de incapacidade ou baixa tolerância à frustração. Paralelamente, existe, frequentemente, dificuldade em manter o esforço em tarefas cuja recompensa não é imediata, favorecendo padrões de procrastinação, evitamento ou abandono precoce.

Do ponto de vista neurobiológico, vários estudos identificam alterações em circuitos cerebrais que envolvem o córtex pré-frontal, os gânglios da base, o cerebelo e as redes responsáveis pela atenção e pela função executiva. Estas alterações ajudam a compreender porque razão a PHDA não corresponde apenas a um problema comportamental, mas sim a uma condição complexa que afeta múltiplos sistemas cognitivos.

Importa também reconhecer que a PHDA surge precocemente e tende a persistir ao longo do ciclo vital, embora com diferentes formas de expressão em cada etapa do desenvolvimento. As suas repercussões estendem-se ao funcionamento académico, social, emocional e familiar, tornando particularmente importante o diagnóstico precoce e a implementação atempada de estratégias de intervenção adequadas.

Contudo, o diagnóstico continua a ser exclusivamente clínico, baseado na observação comportamental e na avaliação dos sintomas. Não existem exames laboratoriais ou imagiológicos capazes de confirmar, de forma isolada, a presença de PHDA. Acresce que a elevada heterogeneidade clínica e a frequente presença de comorbilidades tornam insuficiente qualquer abordagem simplista.

Neste contexto, a avaliação neuropsicológica assume um papel fundamental. Integrada numa análise clínica multidisciplinar, multidimensional e longitudinal, permite compreender o perfil cognitivo específico de cada criança, identificar áreas de vulnerabilidade e reconhecer competências preservadas. Mais do que atribuir um rótulo, o objetivo passa por construir estratégias de intervenção individualizadas que promovam autonomia, adaptação emocional e sucesso académico e social.

Compreender os défices neurocognitivos associados à PHDA é fundamental para substituir interpretações moralizantes — como preguiça, desorganização ou falta de esforço — por uma compreensão clínica mais rigorosa, empática e ajustada às reais necessidades destas crianças e jovens.

Este tema é abordado de forma mais aprofundada no livro Compreender a PHDA (LIDEL), onde são apresentadas orientações práticas para famílias e profissionais, com base na evidência científica e na experiência clínica.

 

Autor: 
Cláudia Alfaiate - Psicóloga e coautora do livro Compreender a PHDA (LIDEL Editora)
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.