Opinião

A pergunta que decide o caso Salgado. Não é uma questão de culpa. Nem de Alzheimer. É uma questão de capacidade.

Atualizado: 
15/06/2026 - 08:45
A mais recente decisão do tribunal relativa a Ricardo Salgado reacendeu o debate público. Há uma pergunta que parece simples mas que está no centro do caso Ricardo Salgado. Uma pessoa pode ser condenada e, ainda assim, não reunir condições para cumprir uma pena?

A reacção instintiva de muitas pessoas é (quase sem excepção) de revolta. "Então foi condenado e não vai preso?"

Percebo a indignação. Mas a questão que a justiça está a tentar responder é e sempre foi outra.

A justiça não avalia apenas os actos praticados no passado. Avalia também se a pessoa, no presente, tem capacidade para compreender o que lhe está a acontecer. Para uma pena cumprir a sua função, é necessário que exista alguém capaz de perceber a condenação, exercer os seus direitos de defesa  e compreender o significado da punição.

E é aqui que entra a doença de Alzheimer. Muitas pessoas continuam a associá-la apenas aos tão badalados “esquecimentos”. Mas o Alzheimer pode afectar muito mais do que isso. À medida que a doença progride, podem surgir alterações da linguagem, da compreensão, do raciocínio, do juízo crítico e da capacidade de interpretar a realidade. A doença não apaga apenas memórias. Pode apagar a própria capacidade de compreender o mundo à nossa volta.

Por isso, a questão relevante não é saber se alguém tem Alzheimer. É saber até que ponto essa doença compromete a sua capacidade funcional.

Em medicina legal, ninguém é dispensado de um julgamento ou do cumprimento de uma pena apenas porque apresenta um diagnóstico. Existem perícias realizadas por equipas especializadas, com metodologias próprias, destinadas a responder a uma pergunta muito concreta: esta pessoa compreende o que lhe está a acontecer e consegue exercer os seus direitos?

Estamos a discutir muito o diagnóstico e pouco a funcionalidade. Duas pessoas podem ter a mesma doença, exames semelhantes e capacidades completamente diferentes. Em medicina não tratamos exames nem doenças - tratamos pessoas.

O Alzheimer não apaga automaticamente a responsabilidade pelo passado. O que pode retirar é a capacidade de compreender o presente. E é precisamente essa capacidade actual que está a ser avaliada.

Por isso, quando o debate se transforma numa discussão emocional, mediática ou política, corre-se o risco de perder de vista a única questão verdadeiramente importante: a capacidade da pessoa.

E essa é uma pergunta clínica.

Autor: 
Dra. Maria Moreno - médica Psiquiatra @mariamoreno.medicapsiquiatra
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.