Opinião

Parece bom senso. Mas é mentira.

Atualizado: 
01/04/2026 - 08:14
Hoje em dia, toda a gente tem alguma coisa. Ansiedade, burnout, depressão. Parece quase obrigatório. Antes chamava-se vida normal, agora virou doença.

Um desgosto amoroso é logo um “trauma”. Um dia mau já é um “episódio depressivo”. Há uma certa moda em não estar bem — e, curiosamente, quanto mais se fala disso, mais pessoas aparecem com o mesmo problema.

A verdade é que, se a pessoa continua a trabalhar, a sair com amigos e a rir, dificilmente está assim tão mal. A depressão a sério vê-se. Nota-se. Quem está deprimido não funciona. Tudo o resto é uma enorme falta de vontade ou uma fase que passa. Pelo menos para os fortes de carácter. Para esses, há sempre escolha. Têm em si a capacidade de se superar.

Há sempre a explicação da “química do cérebro” para justificar a preguiça de uns e outros. Um conceito conveniente, difícil de provar e fácil de usar para justificar tudo. No fundo, transforma-se sofrimento humano em diagnóstico e diagnóstico em tratamento — muitas vezes sem questionar se era mesmo necessário.

Criou-se a ideia de que toda a gente precisa de terapia. Ir ao psicólogo ou ao psiquiatra passou de excepção a rotina. E que sociedade essa a que estamos a criar - tudo precisa de ser analisado, tratado ou medicado.

E depois há a questão da medicação. Antidepressivos, ansiolíticos e outros tais - hoje tomam-se como quem toma vitaminas. Mas a que custo? Há quem diga que não causam dependência mas a verdade é que muitas pessoas não conseguem estar sem eles. Começam com uma dose pequena e, de repente, não sabem viver de outra forma.

Nem tudo é doença. Nem tudo precisa de intervenção.

Ou será que precisa?

Se leu isto tudo e concordou, então é parte do problema.

É isto que os doentes ouvem todos os dias — em casa, no trabalho, na rua.

E é por isto que chegam tarde. E é por isto que chegam pior.

Tudo o que leu acima está errado.

 

Feliz Dia das Mentiras.

 

Autor: 
Maria Moreno - médica psiquiatra @mariamoreno.medicapsiquiatra
Nota: 
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