Opinião
O salário emocional na saúde: além da remuneração
28/04/2026 - 08:53
Atualizado:
28/04/2026 - 08:53
Durante muitos anos, os profissionais de saúde fizeram uma gestão de carreira muito assente no cuidado ao outro, mas também muito focada na compensação financeira e prestígio profissional e social. Esta abordagem obrigou a sacrifícios pessoais pautados por longas jornadas, disponibilidade para prestar serviços em múltiplos locais, tudo sob grande pressão em termos de performance e qualidade. Foram assim preteridos alguns confortos e privilégios de uma vida com um equilíbrio razoável entre as obrigações e conquistas profissionais, e o bem estar pessoal e familiar.

Mas o cenário mudou, e hoje assistimos a uma mudança de paradigma.
Não só neste sector, mas a Saúde não foge à tendência, do reconhecimento, bem estar emocional e procura de uma liderança empática serem considerados pilares no que respeita à retenção de profissionais. Estes deixaram de ser vistos como benefícios acessórios, para serem factores diferenciadores em momento de tomadas de decisão.
Verifica-se uma crescente necessidade de feedback em tempo real com validação e construção de melhoria por pares e chefias e, de forma quase consequente, a necessidade de valorização de performance através de sistemas de progressão e incentivos financeiros e de mérito. Há portanto uma crescente necessidade de acompanhamento da liderança para que o profissional se sinta valorizado na sua prática clínica, dedicação e senioridade, não se podendo esgotar esta valorização na componente financeira espelhada na remuneração mensal contratada.
Outra mudança de paradigma, e que decorre da diversidade geracional que atua em simultâneo no mercado de trabalho e do contexto sócio-económico que tem impacto directo em novos desafios no âmbito da saúde mental, é a necessidade e valorização de programas de apoio psicológico e emocional, e de um acompanhamento diferenciado. Começa assim a desenhar-se uma realidade de trabalho que precisa de trazer espaços seguros de discussão e aprendizagem, com debriefings que enriqueçam o profissional sem que tenham necessariamente consequências penalizadoras na sua avaliação, aliando a isto programas de saúde mental com consultas ou apoio psicológico, numa óptica de prevenção e acompanhamento, caso exista essa necessidade identificada.
E para além de capacitarmos lideranças para estas novas exigências e necessidades dos profissionais, devemos procurar promover outras duas soluções que se enquadram no salário emocional, sendo estas a formação e a requalificação.
De entre o muito que mudou, a vontade de aprender, de se superar e aportar mais valor à sua área de atuação, mantêm-se enquanto características dos profissionais de saúde, que devemos valorizar, e potenciar.
Disponibilizar conteúdo actual e relevante, que acrescente no dia a dia do profissional é algo que, para além de necessário é valorizado, e que concorre directamente com a estagnação e desmotivação que queremos evitar. Investir na formação dos elementos da equipa, traz-lhes novas competências e perspetiva de progressão que actua como uma alternativa de peso ao aumento salarial imediato, nem sempre possível, para além de poder abrir novos horizontes para outras áreas clínicas, mantendo sempre presente o desafio intelectual.
O futuro do setor da saúde não se escreve apenas com tabelas salariais, mas com a capacidade de promover propósito, e oferecer segurança e evolução. O salário emocional tem de começar a ser visto seriamente como resposta para uma geração que já não aceita prescindir do seu bem-estar em nome de prestígio e conforto financeiro. É tempo de transformar a gestão de talento numa prática tão humanizada quanto a própria prática clínica.
Autor:
Luísa Cardoso - Manager responsável pela área Healthcare da Randstad
Nota:
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
