“O meu humor acompanha o da senhora da meteorologia” - Depressão Sazonal

Sou eu como psiquiatra e os meus colegas na reumatologia. Tal como os doentes com reumático garantem que sentem no corpo quando o tempo vai mudar, muitos dos meus doentes conseguem antecipar o seu humor ao ouvir a previsão do tempo.
Não são mais sugestionáveis. Nem mais dramáticos.
A luz solar regula o nosso relógio interno — o ritmo circadiano. E com o nosso ritmo circadiano, todo um sem número de substâncias que prezam por mandar no nosso humor, na energia, no sono, no apetite e até na forma como pensamos.
O Inverno, é pobre em luz. Para a maioria das pessoas, isto é um ajuste subtil. Para outras, é uma queda abrupta.
E quando o cérebro é mais vulnerável às mudanças de luz, o humor torna-se dependente da meteorologia.
Não é por acaso que países mais afastados do equador têm taxas mais elevadas de depressão sazonal e que alguns doentes melhoram quando subitamente emigram para um país com mais sol. Não é por acaso que algumas pessoas melhoram quando mudam de trabalho e saem de um escritório onde há poucas janelas e as que há estão sempre de persianas corridas. Nem é coincidência que certos doentes organizem férias na praia ou temporadas fora a trabalhar em Angola, estrategicamente, todos os anos nos meses “mais tristes”, mesmo sem o verbalizarem assim.
O sol ajuda. Muito. Nunca deixo de ficar impressionada. Raramente me dizem: “fiz isto por causa da depressão sazonal”. Mas quando olhamos para o padrão, a lógica está lá. O cérebro tenta proteger-se.
Mas há um ponto que importa esclarecer mais do que nunca. A meteorologia pode influenciar o humor — sim. Mas, se a senhora da meteorologia dita a nossa energia, o nosso apetite, a nossa produtividade e a vontade de existir, então não estamos perante uma mera preferência por dias de sol. Estamos perante um padrão clínico.
E os padrões clínicos tratam-se.
Não podemos mudar o anticiclone dos Açores. Mas podemos tornar o cérebro menos vulnerável aos dias de frio e chuva.
