Saúde Auditiva

“Não se permita permanecer no silêncio”: perda auditiva pode acelerar isolamento e declínio cognitivo

Atualizado: 
20/05/2026 - 06:58
A adaptação de um aparelho auditivo está longe de ser apenas a compra de um dispositivo eletrónico. Para a audiologista Marta Lima, trata-se de um verdadeiro ato de saúde integral, capaz de devolver qualidade de vida, promover a socialização e contrariar o declínio cognitivo associado à perda auditiva não tratada. Em entrevista, a especialista alerta para a importância de um diagnóstico rigoroso, de um acompanhamento contínuo e de soluções personalizadas às necessidades e ao estilo de vida de cada pessoa.

P: A escolha de um aparelho auditivo é frequentemente vista como a compra de um simples dispositivo eletrónico. No entanto, é um processo mais complexo do que parece. Poderia explicar por que é que a adaptação auditiva é, na verdade, um ato de saúde integral, com um impacto profundo no bem-estar geral e na qualidade de vida?

R: A perda auditiva e as suas consequências levam ao isolamento social e consecutivamente ao declínico cognitivo de um indivíduo. Adaptar um aparelho auditivo, (re)habilitar alguém a ouvir e a perceber o mundo que o rodeia é estar a contrariar este processo. Mais do que devolver a audição, pretende-se devolver qualidade de vida. 

P: O abandono do aparelho auditivo, o chamado "aparelho na gaveta", é um problema real. Da sua experiência, enquanto audiologista, quais são as principais razões que levam uma pessoa a desistir de usar o seu aparelho auditivo e como é que uma má escolha inicial pode contribuir para esta situação?

R: Assumindo que o diagnóstico foi correto e a escolha da melhor solução para o caso também foi acertada, sem dúvida que a falta de motivação e a não consciencialização da perda auditiva são as razões mais comuns à desistência do processo. No entanto, quando o diagnóstico e/ou a solução aplicada estão errados, a reabilitação não correrá da melhor forma. Enquanto audiologistas não podemos falhar nestes pontos, ou falharemos enquanto profissionais perante os nossos pacientes. 

P: Na sequência da pergunta anterior, como é que um acompanhamento profissional e contínuo por parte de um audiologista é fundamental para prevenir este abandono e garantir o sucesso da adaptação, influenciando diretamente a eficácia da escolha de um aparelho auditivo?

R: A reabilitação auditiva é um processo contínuo, que leva tempo. É importante que o paciente perceba isto, que perceba que será acompanhado ao longo do processo, seja para afinação dos equipamentos, seja para esclarecimento de dúvidas. O dever do paciente é utilizar os equipamentos, mas é nosso dever, enquanto profissionais, fornecer-lhe todas as condições para que isso aconteça sem percalços. E quando a motivação não é a melhor ou existe dúvidas sobre o processo, devemos ter também uma postura de aconselhamento e consciencialização.

P: Estudos recentes associam a perda auditiva não tratada a um maior risco de isolamento, depressão e até de declínio cognitivo. Do ponto de vista audiológico, a escolha de um aparelho auditivo adequado pode mitigar estes riscos, promovendo a saúde do nosso cérebro e bem-estar mental? Quais são os fatores que devem ser tidos em consideração na escolha de  um aparelho auditivo?

R: Uma pessoa com perda auditiva não convive, não socializa, perde alegria em fazer o que mais gosta, por vezes até deixa de trabalhar. Tudo isto leva naturalmente a processos depressivos, a declínios cognitivos visíveis. Tratar a perda auditiva é devolver a qualidade de vida, é trazer estímulo cerebral para contrariar estas consequências. Mas para o fazermos com sucesso devemos ter em conta o historial clínico, o tipo e grau de perda auditiva, as dificuldades e necessidades, o estilo de vida, e não menos importante, as expectativas de cada um.

P: O papel do audiologista é fundamental na identificação e intervenção precoces. Que informações e considerações um audiologista partilha com o utente para o ajudar a fazer uma escolha informada que minimize os riscos para a saúde cognitiva e mental?

R: Na identificação e intervenção precoces, o objetivo é ajudar o paciente a perceber como a perda auditiva pode afetar a sua comunicação, a qualidade de vida e até a função cognitiva. Para isso é importante uma clara explicação dos exames fazendo uma corelação com as dificuldades sentidas e de que forma pode piorar. É importante que o paciente perceba que a perda auditiva não reabilitada leva a um declínio da saúde cognitiva.

P: Como funciona uma avaliação audiológica detalhada e qual é a sua importância na fase de diagnóstico para a escolha do aparelho auditivo? Porque é que o dispositivo correto é essencial e por que não existe uma solução única para todos?

R: A avaliação audiológica deverá incluir a observação atenta do canal auditivo - otoscopia, e a realização de uma bateria de exames que nos permita identificar com clareza o tipo, grau e outras especificidades de uma perda auditiva. Não existem dois casos iguais, e mesmo que tenhamos perda auditivas semelhantes, as dificuldades são muito específicas, muito individuais. Por esse motivo, não podemos adaptar a mesma solução a todos os casos. É importante ouvir as pessoas, ouvir as suas necessidades, e iniciar a reabilitação tendo isso em conta juntamente com o nosso diagnóstico.

P: A tecnologia auditiva evoluiu muito. Como é que as funcionalidades modernas, como a inteligência artificial ou a conectividade, são hoje integradas no processo de escolha e personalizadas para se adaptarem não só à perda auditiva, mas também ao estilo de vida e às necessidades específicas de cada pessoa?

R: Estas funcionalidades modernas são por vezes desbloqueadores do processo, que ajudam à aceitação do mesmo. Vivemos num mundo cada vez mais tecnológico e é importante conseguirmos acompanhar essa evolução e fornecer ferramentas modernas, práticas e que ajudem a colmatar algumas dificuldades que persistam. Volto a dizer que é importante conhecer os estilos de vida das pessoas. Se sabemos que estamos perante alguém que utiliza o telemóvel para trabalhar, faz todo o sentido a escolha de uma solução com conectividade. Isto é um pequeno exemplo de uma escolha que pode melhorar ou facilitar exponencialmente uma situação que outrora foi uma dificuldade.

 

  1. A importância de existir um período de experimentação acompanhado pelo audiologista é frequentemente sublinhada. O que acontece durante esse tempo e como é que este período garante que a solução escolhida é a mais correta e eficaz para as necessidades individuais do utente?

R: É fundamental que exista um período de garantia de satisfação. Com isto, o paciente inicia a sua reabilitação com os equipamentos totalmente adaptados a si, sendo possível interromper o processo e proceder à devolução se algo não estiver de acordo com o esperado. O objetivo é que o processo decorra sem a pressão habitual que muitas vezes leva à questão: “e se não me adapto?”. Neste período vamos fazer os ajustes necessários, acompanhar, esclarecer e garantir a qualidade da adaptação.

 

  1. Para terminar, que mensagem gostaria de deixar para quem está no processo de escolha de um aparelho auditivo, ou para os seus familiares, sublinhando a importância de uma decisão informada para uma melhor qualidade de vida?

R: A perda auditiva tem de ser corrigida. Encontre uma marca de confiaça, faça consulta com um audiologista certificado e faça todas as questões necessárias para que se sinta confortável em avançar com o seu processo de reabilitação. Havendo ainda dúvidas, se ainda não o fez, procure um médico Ototrrinolaringologista. Não se permita permanecer no silêncio! A vida merece ser ouvida!

 

Fonte: 
Burson
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.