Opinião

A Medicina Geral e Familiar é o primeiro e essencial recurso na prestação de cuidados de saúde

Atualizado: 
07/04/2022 - 15:10
O dia mundial da saúde, 7 de abril, foi criado pela OMS em 1948 aquando da primeira assembleia. É celebrado anualmente desde 1950. A comemoração tem como objetivo a consciencialização da importância da saúde, a identificação de problemas de saúde que afetam a humanidade e a promoção do envolvimento de todos nós, sociedade civil, profissionais de saúde ou não, na área da saúde. Anualmente é escolhido um tema de maior sensibilização, que é trabalhado a nível internacional, num projeto desenvolvido no decorrer de cada ano. Em 2022, o tema do Dia Mundial da Saúde é: Nosso Planeta, Nossa Saúde. Pela magnitude e abrangência do tema, fazemos uma ponte à figura do médico de família pela sua necessária visão holística e cuidados globais.

Não faz sentido falar sobre o médico de família sem antes fazer um breve resumo da história da Medicina Geral e Familiar em Portugal.

A história da Medicina Geral e Familiar em Portugal é recente, embora já com bastantes reformas, sempre com uma perspetiva de melhoria dos cuidados primários de saúde. Toda esta evolução firmou a Medicina Geral e Familiar como um pilar central do Serviço Nacional de Saúde.

Em 1960 dão-se os primeiros passos com a criação dos Serviços Médico Sociais das Caixas de Previdência, que se destinavam apenas a uma pequena percentagem da população.

Em 1971, foi criado um diploma que confere o direito à saúde a todos os cidadãos, surgindo os primeiros Centros de Saúde em quase todos os concelhos do país. Este Centros de Saúde tinham cuidados de saúde materno-infantil, onde trabalhavam ginecologistas, pediatras e médicos indiferenciados.

O Sistema Nacional de Saúde nasce em 1979 e há consenso da importância de formar médicos generalistas com formação específica, fazendo uma rutura com o médico “clínico geral” indiferenciado do passado.

É em 1981 que se inicia o internato da especialidade de Clínica Geral, sendo posteriormente regulamentada a carreira médica de Clínica Geral e surge o colégio da especialidade na Ordem dos Médicos e os institutos de Clínica Geral Em 1990, a especialidade de Medicina Geral e Familiar é reconhecida.

Desde então tem havido uma reestruturação dos Centros de Saúde com equipas multiprofissionais e atualmente a trabalharem em agrupamentos.

Assim, o percurso da MGF em Portugal, tem cerca de 40 anos. Assistimos a uma evolução francamente positiva, com a aceitação e afirmação desta especialidade interpares e também na população.

Mas qual a importância do médico de família? Em que se distingue das demais especialidades?

A Medicina Geral e Familiar é o primeiro e essencial recurso na prestação de cuidados de saúde.

O médico de família deve ser o primeiro contacto do doente com o sistema de saúde, quer seja público quer seja privado. O médico de família deve promover a comunicação com os diferentes níveis de cuidados tendo um papel importante na gestão das várias especialidades médicas que cada doente necessita. O acesso ao médico de família deve ser aberto e ilimitado a barreiras geográficas, culturais, financeiras.

O médico de família é responsável por cuidados globais, continuados, orientados para as necessidades individuais de quem os procura,

O médico de família trata de todos os seres independentemente do sexo, idade, etnia, contexto socioeconómico, desde que nascem até à sua morte, aliás antes do seu nascimento pelos cuidados maternos e para além da sua morte pelos cuidados a quem fica.

O médico de família atua nas várias fases da vida promovendo a saúde, prevenindo a doença, prestando cuidados curativos e paliativos, atua diretamente ou por forma a organizar e rentabilizar todos os recursos existentes para beneficiar o seu doente. Cada vez mais vivemos a promoção da saúde, fortificando estilos de vida saudáveis, e neste pilar o médico de família tem um papel fundamental, no contacto com grande percentagem da população.

Assim, o médico de família é o médico da pessoa, é um gestor da saúde do seu doente. A sua abordagem é centrada na pessoa, integrando-a na sua família e contexto social e na sua comunidade. Neste papel de gestor deve ter uma atitude protetora e crítica para que aos seus doentes sejam aplicados os exames complementares de diagnósticos, os rastreios e os tratamentos que realmente são eficazes e necessários, sem prejuízo maior e sem hipermedicalização ou tratamentos desnecessários.

O médico de família é o médico que mais conhece da saúde de cada doente, com uma visão global desse ser.

A consulta do médico de família é um processo único que se constrói ao longo de uma vida, onde uma história vai sendo acrescentada a cada consulta, sem prazo de validade. Este momento tão próprio é possível através de uma boa comunicação, disponibilidade, tempo e dedicação.

Cada consulta pode ter vários motivos de consulta e com o envelhecimento da população cada vez mais as consultas são caracterizadas por pluripatologias.

As consultas devem ser periódicas, regulares e programadas.

No entanto, em situações agudas ou de urgência, também têm lugar consultas não programadas / do dia/ de urgência.

Relativamente ao universo dos problemas de saúde tratados pelo médico de família, têm uma abrangência nas várias esferas - psicológica, física, social, cultural e existencial. O médico de família começa a estudar e a dar os primeiros passos nas doenças dos seus doentes, pelo que muitas vezes as queixas iniciais são pouco específicas. Assim é frequente encontrar situações clínicas mais graves e complexas a serem acompanhadas em meio hospitalar (após referenciação do médico de família) do que nos centros de saúde, que têm uma incidência mais baixa de doenças mais graves. Perante sinais e sintomas iniciais e inespecíficos o objetivo do médico de família é realizar diagnósticos precoces.

Ser médico continua a ser uma profissão prestigiante, mas hoje os doentes cada vez têm mais literacia e cada vez mais interrogam a ação do médico e não tomam tudo como verdade.

O grande desafio do médico de família é ter a capacidade de partilhar a responsabilidade com o seu doente, pelo cuidado e tomada de decisões proactivas para a sua saúde. É importante dar autonomia aos doentes com informações precisas, corretas, para que possam tomar boas decisões para a sua saúde.

Têm sido realizados vários estudos e inquéritos para perceber aos olhos da população como deve ser um bom médico. Têm-se identificado que os bons médicos além de serem competentes e com sapiência, devem ser bons comunicadores, serem claros nas suas explicações, terem disponibilidade, terem tempo, serem dedicados, serem interessados, serem empáticos, terem compaixão pelos seus doentes, respeitosos e verdadeiros seres humanos.

É interessante que passados mais de 20 anos de me formar em medicina o tema da humanização da medicina não deixa de ser sempre atual. Somos seres humanos a tratar de seres humanos e não podemos fazermo-nos substituir pela tecnologia. O nosso grande foco como médicos de família é e continuará a ser o nosso doente e fazermos sempre o melhor para a sua qualidade de vida e saúde.

Autor: 
Dra. Patrícia Maia - Coordenadora da Unidade de Medicina Geral e Familiar — Hospital Lusíadas Lisboa
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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