Ortopedista explica

Joanetes: o que são, as causas e como tratar

Atualizado: 
07/03/2024 - 15:54
O joanete é uma das lesões crónicas mais comuns dos pés, e uma das principais razões de procura por especialistas de pé e tornozelo. Sofre deste problema? Então este artigo pode ser uma boa ajuda. Saiba em que consiste a patologia, o que leva ao seu aparecimento e que tratamentos são aconselhados.

O que é?

O Hallux Valgus é uma alteração anatómica, que é caracterizada pelo desvio do dedo grande do pé (hallux), em direção aos outros dedos, e do primeiro metatarso (osso anterior ao hallux) para dentro. Com isto, assiste-se a um aumento ósseo na base do primeiro dedo. Normalmente, o hallux desloca-se lateralmente e a cabeça do primeiro metatarso fica medialmente saliente.

Sabe-se que o joanete é uma condição progressiva. Quer isto dizer que, se não for tratado precocemente, pode progredir, levando a deformidades mais avançadas. Geralmente, quando o desvio já se instalou por muito tempo, a articulação torna-se rígida, não permitindo o movimento.

Causas do joanete

Apesar das causas de o joanete serem pouco conhecidas, sabe-se que são resultado de alterações na articulação metatarsofalângica (articulação que une os ossos do metatarso e as falanges). Isso leva a que exista um desvio do dedo grande para cima dos outros dedos. Parecem existir alguns fatores que aumentam a probabilidade dessa deformidade se desenvolver. É muito improvável que apenas um fator leve ao aparecimento do joanete. Normalmente, aparece por uma combinação de fatores internos e externos ao doente.

Fatores internos

São os fatores que dizem respeito ao próprio indivíduo:

  • Hereditário: pessoas com familiares diretos que apresentem esta alteração têm tendência a desenvolver o desvio no hallux. A predisposição genética também está ligada a outros fatores causais, como o tipo de pé, por exemplo;
  • Pé chato (pé plano) e pronação excessiva: o pé plano e pronação excessiva do pé são fatores importantes para o desenvolvimento do joanete;
  • Idade: o joanete é uma doença progressiva. Com o envelhecimento, existe uma maior a probabilidade de o joanete se desenvolver. No fundo, o envelhecimento leva à perda muscular natural e à alteração da posição dos ossos do pé, fazendo o indivíduo perder o suporte articular, o que contribui para o desenvolvimento da doença;
  • Peso: o aumento do peso corporal eleva a quantidade de carga nos pés, fator que pode diminuir o arco e sobrecarregar no hallux. Esse detalhe, associado a outros, acentua a formação do joanete;
  • Doenças reumatológicas pré-existentes: artrite reumatoide, gota ou lúpus;
  • Fraqueza da musculatura intrínseca do pé: os músculos intrínsecos do pé ajudam na função de mola dos ossos do pé e na estabilização do arco plantar, com o intuito de amortecer a pisada. Além disso, a contração da musculatura auxilia na fixação do dedo grande;
  • Doenças neuromusculares: as doenças neuromusculares, principalmente as que atrofiam o músculo, colaboram para o desenvolvimento de deformidades, porque diminuem o suporte do tecido.

Fatores externos

São fatores relativos ao ambiente, como:

  • Calçado: trata-se do fator externo mais importante. Utilizar, constantemente, calçado que é mais apertado na região dos dedos – como saltos e calçados com ponta fina, por exemplo – favorecem o desvio do hallux, devido à compressão direta nos dedos;
  • Atividade física: atividades que aumentam a sobrecarga nos pés ou que requerem o uso de calçados mais apertados podem acelerar a formação do joanete. Os atletas de corrida ou de ballet, por exemplo, tendem a desenvolver esta doença;
  • Atinge mais as mulheres do que os homens: o joanete afeta cerca de 10 vezes mais as mulheres do que homens. Isto deve-se, principalmente, a 2 circunstâncias:
  • Os estudos mostram que as mulheres têm uma carga genética maior do que os homens;
  • Pelo uso de calçado com salto e finos na ponta – principal causa.

Principais sinais e sintomas dos joanetes

Os sinais mais comuns provocados pelos joanetes são:

  • Uma saliência óssea na base do dedo grande;
  • Edema e rubor na articulação do dedo grande;
  • A pele na região fica mais grossa;
  • O dedo grande pode começar a rodar para dentro, fazendo calos na região.

Sintomas

Quando o joanete se está a desenvolver, é comum sentir-se dores nas articulações, agravadas pela pressão dos sapatos ou atividade:

  • Dor persistente ou ocasional: na fase inicial, o joanete pode não apresentar dor ou apresentar dor ocasional. Geralmente, esse desconforto está associado à utilização de calçados apertados ou sobrecarga. Porém, com o desenvolvimento progressivo da deformidade, essa dor pode tornar-se constante, devido à inflamação e à formação do calo ósseo que limita o movimento articular;
  • Alteração da marcha e equilíbrio: o joanete pode afetar a marcha e o equilíbrio da pessoa, uma vez que altera a biomecânica da marcha, principalmente nas fases em que ocorre a impulsão.

Diagnóstico

O diagnóstico leva em conta os sintomas e a avaliação clínica das estruturas ósseas do pé comprometidas pelo joanete. Exames de raios X em carga costumam ser úteis para determinar a gravidade da lesão e para orientar a escolha do tratamento. Excecionalmente, poderá ser necessário recorrer à Tomografia Computorizada (TAC) ou à Ressonância Magnética (RMN).

O tratamento: conservador e cirúrgico

Não existe um tratamento padrão para todos os casos de joanete. Primeiro do que tudo, são avaliadas as condições e necessidades de cada doente – faixa de idade, estilo de vida, estado geral da saúde e intensidade dos sintomas, por exemplo – antes de propor um tratamento conservador ou cirúrgico. No início do tratamento é preciso reeducar o paciente e modificar os seus calçados. Em casos leves, o tratamento não cirúrgico costuma resolver o problema. O tratamento conservador não visa à correção da deformidade – o hallux valgus é um problema permanente, que só deixará de existir se houver a cirurgia. Se o tratamento conservador não trouxer resultados ao paciente, a cirurgia passa a ser indicada. Em pacientes que apresentam hallux valgus sem sintomas, não é necessário realizar tratamento.

Tratamento conservador

A proposta é aliviar os sintomas e impedir a progressão do desvio. Para atingir esses objetivos, a primeira medida é trocar os sapatos apertados e duros por outros mais folgados e macios, sem salto ou com salto baixo. A ponta deve ser arredondada ou quadrada, para acomodar melhor os dedos e diminuir a pressão nas zonas inflamadas.

Outros recursos terapêuticos: utilização de protetores ortopédicos sobre a área deformada da articulação e de separadores, entre os dedos, de forma a manter o dedo grande afastado do segundo dedo. Em geral, não há evidências de que estas alternativas melhorem o joanete, mas podem ajudar a melhorar os sintomas. Pode ser também receitada medicação à base de anti-inflamatórios e analgésicos.

Tratamento cirúrgico

O tratamento cirúrgico é o único que consegue corrigir a deformidade e, quando as medidas conservadoras falham no controlo das queixas, é a melhor opção. Existem mais de cem técnicas diferentes que permitem corrigir a deformidade, a fim de restaurar as funções perdidas e eliminar os sintomas dolorosos. A técnica percutânea, por exemplo, permite que o procedimento seja realizado através de pequenos orifícios, por onde são introduzidos os instrumentos para corrigir a deformidade. Com as técnicas atuais, geralmente o paciente pode apoiar o calcanhar para caminhar já no dia seguinte. Contudo, deve andar somente o absolutamente necessário, para evitar inflamações.

O que fazer quando o joanete está inflamado?
  • Massagem com cubos de gelo: o gelo aplicado sobre a região diminui o fluxo sanguíneo e desacelera a resposta inflamatória no local. Embora não resolva o problema em si, a sua aplicação, por 10 minutos, gera o alívio imediato da dor. Pode ser realizada de uma a três vezes por dia;
  • Exercícios de fortalecimento: fortalecer os músculos do pé é essencial, pois a musculatura garantirá a estabilidade e alinhamento dos ossos, caso haja alguma sobrecarga.

Como evitar o agravamento desta patologia

Para que não se assista à piora dos sintomas, é necessário ter em conta um conjunto de atitudes:

  • Redobre a atenção e cuidados na hora de comprar sapatos. No caso, estes precisam de acomodar os pés com conforto, para não interferir na distribuição equilibrada do peso do corpo;
  • Dê preferência a calçados de ponta arredondada ou quadrada; evitar a ponta fina;
  • Lembre-se, na hora de comprar calçados, que os pés aumentam um pouco de tamanho no fim do dia ou quando envelhecemos. Por isso, é sempre melhor que a ponta dos dedos não encoste na ponta do sapato;
  • Evite sapatos com saltos maiores do que 3 cm;
  • Não use o mesmo par de sapatos ou de sapatilhas durante dias seguidos, para evitar o atrito sempre no mesmo ponto dos pés;
  • Ande descalço, sempre que possível, especialmente em terrenos irregulares ou na areia, para fortalecer os dedos e articulações dos pés;
  • Procure um ortopedista de pé e tornozelo, se os seus pés estiverem doloridos ou se notar alguma alteração no seu formato e aparência.
Quem tem joanetes pode praticar desporto?

As pessoas que sofrem deste problema, antes de se começarem a praticar algum desporto, devem consultar um ortopedista. A seleção do calçado adequado é essencial e cada modalidade apresenta o seu calçado específico.

Conclusão

Os joanetes surgem associados à utilização de sapatos muito apertados e de salto alto, com maior prevalência nas mulheres. É sobre os pés que todo o corpo se suporta na locomoção. E, muitas vezes, não lhes damos a devida importância e cuidados, para que estes se mantenham saudáveis. A utilização de sapatos confortáveis é essencial. Os saltos não devem exceder os 5 cm de altura. Atualmente, a cirurgia é um procedimento simples. Ainda assim, esta deve ser vista como uma última opção – caso todos os outros tratamentos não tenham resultado.

Autor: 
Prof. Dr. Bruno Pereira - Ortopedista da Clínica Espregueira no Porto
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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