Enxaqueca: reconhecer a doença é o primeiro passo para mudar o seu impacto

A enxaqueca é uma doença neurológica que vai muito além da dor. Pode manifestar-se através de crises recorrentes, acompanhadas de sintomas como náuseas, sensibilidade à luz e ao som ou alterações visuais e sensoriais. As queixas cognitivas são igualmente comuns, sendo que os doentes mais graves sentem, entre as crises, um “nevoeiro” cerebral, dificultando a capacidade de atenção. A intensidade e a frequência dos episódios variam de pessoa para pessoa, mas a imprevisibilidade é, por si só, um fator que pode condicionar a vida quotidiana.
Viver com enxaqueca pode significar cancelar planos, interromper atividades profissionais ou familiares e reorganizar repetidamente a rotina em função da possibilidade de uma nova crise. O impacto não se mede apenas pelo número de dias com dor, mas também pela antecipação da próxima crise, pelas limitações que esta impõe e pela dificuldade em explicar aos outros uma condição que nem sempre é visível. Este impacto estende-se à família, quer no relacionamento com o(a) companheiro(a), podendo mesmo ter repercussões no desempenho académico dos filhos. É frequentemente acompanhada de sentimentos de incompreensão e de culpabilização própria.
O problema começa, muitas vezes, no reconhecimento da doença. Quando a enxaqueca é encarada como uma dor de cabeça passageira, torna-se mais difícil identificar a necessidade de avaliação clínica e perceber que existem estratégias para gerir a doença. A normalização dos sintomas, a automedicação e a ausência de acompanhamento podem contribuir para prolongar o percurso até ao diagnóstico e à adoção de uma abordagem adequada.
Os dados disponíveis em Portugal reforçam a importância deste desafio. De acordo com o consenso nacional publicado em 2025, cerca de 40% das pessoas que vivem com cefaleias não têm acompanhamento médico. O mesmo documento estima que aproximadamente 1,5 milhões de portugueses beneficiariam de acompanhamento médico por cefaleias, sendo que cerca de 90% poderiam ter resposta nos cuidados de saúde primários.
Estes números sublinham a importância de melhorar o reconhecimento das cefaleias e de facilitar o acesso a cuidados de saúde adequados. Perante dores de cabeça recorrentes ou incapacitantes, ou sintomas que interferem com a rotina, procurar aconselhamento médico é um passo importante para compreender a sua causa e determinar a abordagem mais adequada a cada pessoa.
Agir mais cedo é também uma forma de prevenir o agravamento do impacto da doença. A avaliação clínica permite caracterizar os episódios, compreender a sua frequência e intensidade, identificar os fatores que podem estar associados às crises e discutir opções de tratamento e prevenção ajustadas às necessidades individuais.
A abordagem à enxaqueca não deve, por isso, limitar-se à gestão de cada crise isoladamente. É importante olhar para a doença de forma continuada, avaliando o impacto que tem na vida da pessoa e a necessidade de ajustar o acompanhamento ao longo do tempo. O objetivo é reduzir a carga da doença, melhorar a capacidade de gerir os sintomas e permitir que cada pessoa mantenha a maior qualidade de vida possível.
É igualmente essencial reconhecer que não existe uma experiência única de enxaqueca. A doença afeta sobretudo as mulheres e pode coexistir com outras dificuldades, incluindo problemas relacionados com o sono e a saúde mental. Uma abordagem adequada deve ter em conta esta complexidade, evitando reduzir a pessoa à dor que sente ou assumir que todas as crises e todos os percursos são iguais.
Combater a banalização da enxaqueca exige, assim, um esforço conjunto de profissionais de saúde, pessoas que vivem com a doença e sociedade. Implica promover informação rigorosa, reconhecer os sintomas, valorizar o impacto das crises e reforçar a importância do diagnóstico e do acompanhamento médico.
A enxaqueca pode não ter cura, mas existem opções terapêuticas que permitem tratar e controlar a doença. Por isso, reconhecer os sintomas e procurar ajuda não deve ser adiado nem encarado como uma reação exagerada a uma dor de cabeça. É, antes, uma decisão informada sobre a própria saúde.
A enxaqueca não deve ser normalizada só porque é frequente. Quanto mais cedo for reconhecida e devidamente acompanhada, maior será a oportunidade de encontrar uma abordagem adequada e reduzir o impacto que tem na vida de milhões de pessoas.
