Opinião

A dualidade das qualificações e o desafio da requalificação

Atualizado: 
07/04/2026 - 08:45
O sector da saúde enfrenta hoje uma série de desafios, desde o aumento da procura de perfis especializados que colide com a oferta de profissionais que não acompanha este crescimento, à emigração de profissionais de saúde na procura de melhores condições de vida, ao crescimento do sector privado e os desafios do público, ao envelhecimento tanto da população geral, como dos próprios profissionais do sector que iniciam o seu processo de reforma, aos desafios da fraca qualificação e remuneração de profissionais que trabalham neste sector com perfis de suporte e uma componente mais administrativa, mas muitas vezes humana. E é neste último desafio que incide esta partilha.

Na era da inteligência artificial, da automação e das soluções digitais, e mesmo esta área abraçando estas novas realidades, é essencial a sua componente humana, se calhar mais acentuada e relevante do que em qualquer outra actividade.

Desde sempre que se ouve que a Saúde serve a Comunidade, dá apoio, resolve problemas, acompanha desde antes do nascimento até ao final da nossa vida. E também por isso, é um tema tão caro a todos nós.

Olhando para o panorama português, a comunidade valoriza e confia muito nos profissionais de saúde, acreditando nas suas competências técnicas, mas também no "tempo que é dedicado ao utente" e que se traduz no cuidado no dia-a-dia, no tempo de consulta, no interesse demonstrado nas partilhas feitas neste âmbito, e no acompanhamento num quadro de doença, envelhecimento ou senilidade.

Há uma crescente preocupação e valorização da saúde de proximidade. Esta faz-se garantindo infraestruturas como as USFs, promovendo o acompanhamento a domicílios, encontrando soluções tecnológicas ou outras, que procurem retirar utentes de uma urgência hospitalar, garantindo ERPIs condignas e com acompanhamento ao utente, UCCIs com respostas ajustadas às necessidades dos doentes mas acima de tudo, faz-se tendo profissionais de saúde qualificados, com formação especializada e com o propósito de cuidar.

Quando falamos de perfis menos qualificados, não falamos de perfis menos importantes neste ecossistema, mas sim mais operacionais e de suporte, e que nos cuidados de saúde primários representam uma parte muito relevante e sobejamente valorizada pela comunidade.

No que toca à saúde de proximidade, falamos principalmente de Auxiliares de Acção Médica/Assistentes operacionais e Auxiliares de Acção Directa.

Com responsabilidades que integram o apoio e transporte da pessoa doente, os cuidados básicos de idosos ou dependentes, apoio na alimentação e controlo de toma de medicação, a higiene e conforto do utente, e não menos importante, a companhia, o diálogo e o ouvir o outro. Todas estas são exigências para um perfil pouco qualificado ao nível técnico mas que representa na maioria das vezes, o contacto mais regular que o utente tem, a ligação com o enfermeiro ou médico, a pessoa com quem o utente tem maior confiança e em quem recaem muitas vezes queixas próprias da idade, "ralhetes" de quem não sabe que o que diz não faz sentido, "maus humores" de quem não está na sua casa e que está dependente do acompanhamento de terceiros em quem deposita todos os seus medos, o seu tempo para reclamar ou partilhar histórias passadas, e as suas dependências físicas e emocionais.

Esta é uma classe de profissionais que regista taxas de desemprego significativamente elevadas, liderando destacadamente os números nos centros de emprego. E aqui, ao contrário do que acontece com profissionais mais qualificados, não podemos afirmar que existe escassez de recursos.

Podemos e devemos estar cientes de que existem muitos possíveis cuidadores em situação de desemprego, e muitas entidades públicas e IPSSs com escassez de pessoas e sem capacidade para as qualificar e remunerar de forma justa. Foram já conquistadas carreiras que não existiam e ajustes salariais. Falta olhar para as crescentes necessidades nesta área, e perceber ser necessário construir uma estratégia de requalificação, reconhecimento e promoção para estas carreiras de cuidados primários.

É incontornável que seja feito o investimento na qualificação de recursos humanos com ou sem experiência na área, que procurem o seu caminho profissional na saúde de proximidade, porque só desta forma conseguimos garantir a qualidade nesta prestação de serviços que é tão valorizada quanto necessária.

Não podemos fugir à certeza do aumento da esperança média de vida e do envelhecimento da população, promovidos por avanços na medicina, pela literacia em saúde, pela queda da natalidade entre outros factores que convergem para uma população que precisará cada vez de mais cuidados básicos próximos e continuados, e por mais tempo.

 

Autor: 
Luísa Cardoso - Manager responsável pela área Healthcare da Randstad
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.