Estenose Aórtica e Insuficiência Mitral

Doença Valvular Cardíaca é frequente mas poucos a conhecem

Atualizado: 
20/09/2019 - 14:51
A Estenose Aórtica é uma das disfunções das válvulas cardíacas mais frequentes na terceira idade, no entanto, de acordo com um estudo europeu apenas pouco mais de 3% da população sabe do que se trata. Por se tratar de uma patologia que limita as capacidades do doente e a sua qualidade de vida, no âmbito da Semana Europeia de Consciencialização para a Doença Valvular Cardíaca, Bruno Melica, cardiologista de Intervenção e Membro da Comissão científica Valve for Life e Corações de Amanhã, responde às principais questões para que fique a conhecer o essencial sobre o tema.

A doença valvular cardíaca mais comum é a estenose aórtica. Em que consiste? Qual é a prevalência desta doença, em Portugal?

A estenose aórtica é uma doença que afeta cerca de 32 mil portugueses, maioritariamente pessoas acima dos 70 anos, limitando as suas capacidades e qualidade de vida.

A aorta é a principal artéria do nosso corpo que transporta sangue para fora do coração. Quando o sangue sai do coração flui da válvula aórtica para a artéria aorta. A válvula aórtica tem como função evitar que o sangue bombeado pelo coração volte para trás. Na presença de estenose, a válvula aórtica não abre completamente, vai ficando cada vez mais estreita e isso impede o fluxo sanguíneo para fora do coração. Se não for detetada atempadamente esta doença pode ter um desfecho letal.

E quais são os principais sintomas da estenose aórtica?

Os principais sintomas são o cansaço, dor no peito e desmaios.

Como se pode diagnosticar esta doença?

O diagnóstico da estenose aórtica pode ser confirmado com recurso à auscultação, ecocardiografia (2D, modo M e com doppler), seguindo-se muitas vezes um cateterismo cardíaco para completar o estudo quando se considera que é necessário efetuar um tratamento invasivo.

Mas esta doença pode ser tratada. Como?

O tratamento da estenose aórtica passa pelo implante de uma nova válvula cardíaca através de cirurgia convencional ou de um procedimento minimamente invasivo, por cateter. Esta última técnica, para muitos especialistas, é o grande avanço da cardiologia dos últimos 20 anos. Em doentes com risco acrescido pode ter vantagens em relação à cirurgia de peito aberto (cirurgia convencional) e diminuir os riscos relacionados com o tratamento.

A insuficiência mitral é a segunda doença valvular cardíaca mais comum, a nível global. Em que consiste? Que grupos são mais afetados por esta doença?

A insuficiência mitral carateriza-se por um refluxo de sangue pela válvula mitral. À medida que o ventrículo esquerdo bombeia o sangue para a aorta, um pouco de sangue retorna para trás em direção à aurícula esquerda, aumentando o volume de sangue e pressão nesse local. Este aumento da pressão arterial na aurícula esquerda aumenta a pressão do sangue nas veias dos pulmões. Será bombeado menos sangue para a circulação e os pulmões ficam como que encharcados em sangue e isto gera a falta de ar e o cansaço.

Quais são as principais causas da Insuficiência Mitral?

A fraqueza hereditária do tecido da válvula mitral, o enfarte agudo do miocárdio ( “ataque cardíaco”) ou as doenças do músculo cardíaco são as causas mais comuns da insuficiência mitral.

E como se manifesta a doença?

Os principais sintomas são a falta de ar e o cansaço.

Como se diagnostica?

O diagnóstico da insuficiência mitral é feito com base nas caraterísticas do sopro cardíaco, ouvido pelo médico, através da auscultação com o estetoscópio. O eletrocardiograma e a radiografia torácica podem confirmar o aumento do ventrículo esquerdo. A ecocardiografia é essencial e para avaliar o tamanho do ventrículo e da aurícula esquerda e a quantidade de sangue que está a refluir, de modo a avaliar a gravidade da doença.

Tal como para a Estenose Aórtica, existem também tratamentos para a Insuficiência Mitral. Quais são?

Nos casos mais graves, a cirurgia da válvula mitral pode ser o tratamento mais indicado, para reparar ou substituir a válvula cardíaca danificada. No entanto, metade dos doentes encaminhados para cirurgia não é operada, por razões relacionadas com outras doenças concomitantes, pela disfunção do ventrículo esquerdo ou pela idade avançada. Nos últimos anos foram desenvolvidas inovações importantes no campo do tratamento e já existem em Portugal vários dispositivos percutâneos, minimamente invasivos, disponíveis ou sob investigação. Para estes doentes, esses dispositivos podem diminuir os riscos relacionados com o tratamento.

A Associação Portuguesa de Intervenção Cardiovascular (APIC) assinala esta semana a Semana Europeia de Consciencialização para a Doença Valvular Cardíaca. Em que consiste?

Esta iniciativa tem como objetivos aumentar a consciencialização sobre a doença valvular cardíaca e os seus sintomas, promovendo, desta forma, a prevenção, o diagnóstico e o tratamento atempado da mesma.

Em Portugal, a APIC vai promover uma exposição temática sobre esta doença, dirigida a todas as pessoas, nos átrios dos hospitais portugueses.

E em que consiste a campanha “Corações de Amanhã”?

A “Corações de Amanhã” é uma campanha promovida pela APIC, que conta com o alto patrocínio do Presidente da República. No fundo, pretende aumentar o conhecimento e a compreensão sobre a doença valvular cardíaca, focando-se principalmente na estenose aórtica e na insuficiência mitral, que são as mais comuns, e promovendo o seu diagnóstico e tratamento atempado.

 

Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Foto: 
ShutterStock