Doença renal crónica: a “epidemia silenciosa” que continua a crescer em Portugal

Pergunta: O que é a DRC e porque é que a sua natureza assintomática inicial a torna numa "epidemia silenciosa" tão perigosa?
Resposta: A Doença Renal Crónica (DRC) caracteriza-se pela perda progressiva e irreversível da função dos rins. É apelidada de "epidemia silenciosa", porque em quase toda a sua progressão não apresenta sintomas claros, o que torna o diagnóstico precoce extremamente difícil de alcançar do ponto de vista clínico. A ausência de sintomas a ela associados faz com que muitos doentes só procurem ajuda quando a função renal já está severamente comprometida e o seu tratamento já não é possível.
Pergunta: O que nos dizem os dados recentes sobre o crescimento de doentes em hemodiálise em Portugal ao longo dos anos?
Resposta: Portugal encerrou o ano de 2023 com quase 14 mil doentes em hemodiálise, um aumento que se tem mantido constante ao longo dos anos. Este crescimento revela o subdiagnóstico da doença, o maior desafio nos tempos atuais. Os dados indicam que, apesar das campanhas, a incidência de falência renal continua a subir, refletindo a necessidade urgente de estratégias de prevenção mais agressivas.
Pergunta: Como é que a diabetes, hipertensão e obesidade afetam os rins e como podemos prevenir estas consequências?
Resposta: Estas condições são as principais causas da DRC em Portugal. A Diabetes e Hipertensão causam danos nos pequenos vasos sanguíneos dos rins, prejudicando a sua capacidade de filtragem, sendo, ao mesmo tempo, fatores pro-inflamatórios, como o é a Obesidade. O controlo rigoroso destes fatores de risco, que estão muitas vezes associados e a que chamamos de síndrome metabólico, são fundamentais para diminuir o número de pessoas com DRC em Portugal. Para isso, têm um papel fulcral os cuidados de saúde primários.
Pergunta: Qual a importância do rastreio e quem deve ser rastreado regularmente?
Resposta: Dado o carácter silencioso da doença, o rastreio é a única forma de deteção precoce.
Este é feito de uma forma muito simples! Através de exames simples, como uma análise de sangue (creatinina/taxa de filtração glomerular) e uma análise de urina (pesquisa de proteínas).
Os doentes que devem ser anualmente rastreados são os principais Grupos de Risco: doentes com diabetes, hipertensão, obesidade, historial familiar de doença renal ou patologias urológicas ou sistémicas.
Pergunta: Como vê a SPN o uso do humor, como o talkshow 'Rim para a meia-noite', na literacia em saúde?
Resposta: A SPN vê estas abordagens criativas de forma muito positiva. Utilizar o humor para transmitir conceitos de literacia médica tão densos ajuda a desmistificar a função renal e a aproximar a mensagem da população de uma forma menos assustadora e mais eficaz.
Pergunta: Quais os maiores desafios e avanços na abordagem da DRC em Portugal?
Resposta: O maior desafio na gestão da DRC em Portugal reside na prevenção e no diagnóstico atempado para que os doentes não cheguem ao nefrologista apenas em estádios avançados.
No que diz respeito aos avanços, destacamos a integração com os Cuidados de Saúde Primários e o aumento crescente de fármacos disponíveis no mercado para controlo das doenças renais.
A Sociedade aposta na integração de cuidados e na monitorização contínua para inverter a curva desta epidemia nos próximos anos.
