Dia Mundial do Rim

Doença renal crónica: a “epidemia silenciosa” que continua a crescer em Portugal

Atualizado: 
12/03/2026 - 06:44
Afeta milhares de pessoas e muitas vezes evolui sem sintomas durante anos. A Doença Renal Crónica é hoje um dos grandes desafios de saúde pública, com quase 14 mil doentes em hemodiálise em Portugal. No âmbito do Dia Mundial do Rim, a nefrologista Ana Farinha, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Nefrologia, alerta para a importância do diagnóstico precoce, do controlo de fatores de risco como a diabetes, a hipertensão e a obesidade, e do reforço do rastreio junto dos grupos mais vulneráveis.

Pergunta: O que é a DRC e porque é que a sua natureza assintomática inicial a torna numa "epidemia silenciosa" tão perigosa?

Resposta: A Doença Renal Crónica (DRC) caracteriza-se pela perda progressiva e irreversível da função dos rins. É apelidada de "epidemia silenciosa", porque em quase toda a sua progressão não apresenta sintomas claros, o que torna o diagnóstico precoce extremamente difícil de alcançar do ponto de vista clínico. A ausência de sintomas a ela associados faz com que muitos doentes só procurem ajuda quando a função renal já está severamente comprometida e o seu tratamento já não é possível.

 

Pergunta: O que nos dizem os dados recentes sobre o crescimento de doentes em hemodiálise em Portugal ao longo dos anos?

Resposta: Portugal encerrou o ano de 2023 com quase 14 mil doentes em hemodiálise, um aumento que se tem mantido constante ao longo dos anos. Este crescimento revela o subdiagnóstico da doença, o maior desafio nos tempos atuais. Os dados indicam que, apesar das campanhas, a incidência de falência renal continua a subir, refletindo a necessidade urgente de estratégias de prevenção mais agressivas.

 

Pergunta: Como é que a diabetes, hipertensão e obesidade afetam os rins e como podemos prevenir estas consequências?

Resposta: Estas condições são as principais causas da DRC em Portugal. A Diabetes e Hipertensão causam danos nos pequenos vasos sanguíneos dos rins, prejudicando a sua capacidade de filtragem, sendo, ao mesmo tempo, fatores pro-inflamatórios, como o é a Obesidade. O controlo rigoroso destes fatores de risco, que estão muitas vezes associados e a que chamamos de síndrome metabólico, são fundamentais para diminuir o número de pessoas com DRC em Portugal. Para isso, têm um papel fulcral os cuidados de saúde primários.

 

Pergunta: Qual a importância do rastreio e quem deve ser rastreado regularmente?

Resposta: Dado o carácter silencioso da doença, o rastreio é a única forma de deteção precoce.

Este é feito de uma forma muito simples! Através de exames simples, como uma análise de sangue (creatinina/taxa de filtração glomerular) e uma análise de urina (pesquisa de proteínas).

Os doentes que devem ser anualmente rastreados são os principais Grupos de Risco: doentes com diabetes, hipertensão, obesidade, historial familiar de doença renal ou patologias urológicas ou sistémicas.

 

Pergunta: Como vê a SPN o uso do humor, como o talkshow 'Rim para a meia-noite', na literacia em saúde?

Resposta: A SPN vê estas abordagens criativas de forma muito positiva. Utilizar o humor para transmitir conceitos de literacia médica tão densos ajuda a desmistificar a função renal e a aproximar a mensagem da população de uma forma menos assustadora e mais eficaz.

 

Pergunta: Quais os maiores desafios e avanços na abordagem da DRC em Portugal?

Resposta: O maior desafio na gestão da DRC em Portugal reside na prevenção e no diagnóstico atempado para que os doentes não cheguem ao nefrologista apenas em estádios avançados.

No que diz respeito aos avanços, destacamos a integração com os Cuidados de Saúde Primários e o aumento crescente de fármacos disponíveis no mercado para controlo das doenças renais.

A Sociedade aposta na integração de cuidados e na monitorização contínua para inverter a curva desta epidemia nos próximos anos.

 

Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.