Opinião

10 julho | Dia Mundial da Saúde Ocular

Atualizado: 
06/07/2026 - 07:55
Ver bem não deve ser um privilégio. A visão é, para a maioria de nós, o sentido que mais facilmente tomamos por garantido. Só quando falha percebemos o quanto dependemos dela para quase tudo: reconhecer quem nos rodeia, ler, trabalhar, deslocar nos, interpretar o mundo. Apesar disso, milhões de pessoas continuam sem acesso aos cuidados básicos que poderiam evitar a perda de visão. A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 2,2 mil milhões de pessoas vivam com algum grau de deficiência visual, e que metade desses casos poderia ter sido evitada com prevenção simples, exames regulares ou tratamentos acessíveis.

A história da cegueira no mundo é, em grande parte, a história das desigualdades. Em África e em vastas regiões da Ásia, a catarata não tratada e os erros refrativos (falta de óculos)  permanecem como as principais causas de cegueira — não por falta de solução, mas por falta de acesso. Em muitos países, existe menos de um oftalmologista por milhão de habitantes, e a ausência de algo tão básico como um par de óculos impede milhões de crianças de aprender e milhões de adultos de trabalhar. A cegueira evitável continua a ser um marcador de pobreza, exclusão e fragilidade dos sistemas de saúde.

Na América Latina, sobretudo em zonas rurais, a falta de consultas e cirurgias mantém problemas que poderiam ser resolvidos em poucos minutos. A distância, o custo e a escassez de profissionais tornam a visão um privilégio geográfico. Em contrapartida, na Europa e na América do Norte, onde o acesso é mais amplo, a perda de visão resulta sobretudo de doenças crónicas e silenciosas, como o glaucoma, a degenerescência macular e a retinopatia diabética. São doenças que avançam sem dor e sem aviso, exigindo vigilância constante e políticas de saúde pública que não se limitem ao tratamento, mas que apostem na prevenção.

Portugal acompanha esta tendência. O país dispõe de uma rede de cuidados oftalmológicos sólida, mas enfrenta desafios que se agravam com o envelhecimento da população e com a crescente prevalência da diabetes. A retinopatia diabética é hoje uma das principais causas de perda de visão em idade ativa. Muitos casos poderiam ser evitados com rastreios regulares, mas nem todos os doentes são acompanhados de forma sistemática. O programa nacional de rastreio tem avançado, mas ainda não cobre toda a população em risco, deixando milhares de pessoas vulneráveis a uma perda de visão evitável. A prevenção existe, a tecnologia existe, o conhecimento existe — falta garantir que chega a todos.

Também a saúde visual infantil exige atenção. Problemas como ambliopia ou erros refrativos podem comprometer o desenvolvimento escolar e a qualidade de vida. Um exame simples nos primeiros anos de vida pode detetar alterações que, se tratadas cedo, evitam consequências permanentes. No entanto, nem todas as crianças são avaliadas no momento certo, e muitos sinais passam despercebidos até que o impacto se torna evidente. A visão infantil continua a depender demasiado da atenção dos pais, da disponibilidade das escolas e da capacidade de resposta dos serviços de saúde. O Rastreio de Saúde Visual Infantil, implementado em todo o país, com avaliação aos 2 e 4 anos, constitui uma resposta eficiente a este problema. O alargamento a toda a população é fundamental.

Entre os idosos, a degenerescência macular da idade e o glaucoma são as principais causas de cegueira irreversível. Ambas evoluem de forma silenciosa, tornando essencial o diagnóstico precoce. A cirurgia de catarata, por sua vez, continua a ser uma das intervenções médicas mais eficazes e acessíveis, devolvendo visão e autonomia a milhares de pessoas todos os anos. Mas mesmo aqui persistem desigualdades: quem vive longe dos centros urbanos, quem tem menor literacia em saúde ou quem enfrenta dificuldades económicas tende a chegar mais tarde ao diagnóstico e ao tratamento.

A saúde ocular é, no fundo, um espelho das prioridades de cada sociedade. Promover a visão não significa apenas evitar a cegueira. Significa preservar a independência, reduzir o risco de quedas, manter a capacidade de trabalhar e garantir qualidade de vida. Significa permitir que crianças aprendam, que adultos mantenham a sua autonomia e que idosos vivam com dignidade. A maior parte da perda de visão no mundo não resulta da falta de conhecimento médico, mas da falta de acesso. E essa é, talvez, a desigualdade mais fácil de corrigir — desde que exista vontade política, organização e investimento.

Num tempo em que se discute o futuro dos sistemas de saúde, a visão deveria ocupar um lugar central. Não apenas porque é um dos sentidos mais determinantes para a vida quotidiana, mas porque é uma área onde a prevenção funciona, onde o diagnóstico precoce muda destinos e onde intervenções transformam vidas. Ver bem não deve ser um privilégio. Deve ser um direito básico, garantido a todos, independentemente do lugar onde vivem, da idade que têm ou da condição económica em que se encontram.

 

Autor: 
Dr. Rufino Silva - Professor Universitário e Médico Oftalmologista
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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