Dia Mundial da Saúde Sexual

O desequilíbrio hormonal é a causa da homossexualidade?

Atualizado: 
05/09/2016 - 10:08
Este ano, para assinalar o Dia Mundial da Saúde Sexual, a Associação Mundial para a Saúde Sexual propõe desmistificar alguns mitos sobre sexualidade. Por cá, o especialista em urologia e sexologia, Nuno Monteiro Pereira, explica-nos que não é possível concluir que a orientação sexual dependa de fatores hormonais.

Não se sabe exactamente porque é que algumas pessoas são homossexuais e outras não. Foram avançadas muitas propostas, desde diferenças genéticas, problemas hormonais, causas culturais, influencia da religião, pais dominadores, etc... Uma coisa parece certa e é, seguramente, determinante: a proporção de indivíduos homossexuais a nível das populações mundiais não varia significativamente. Pertencem às mais diferentes idades, classes sociais, culturas, raças, nacionalidades e religiões, e formam um grupo bastante heterogéneo. Mas a incidência na população mundial parece ser quase constante, sendo de aproximadamente 4% a 8% para os homens homossexuais e de 2% a 3% relativamente a mulheres homossexuais. Isso sugere fortemente a dominância de fatores biológicos, independentemente de poder haver eventuais factores sociais e culturais.

Desde 1973 que a homossexualidade deixou de pertencer à lista oficial das doenças psiquiátricas. Mas a procura de factores biológicos só passou a ser uma constante desde os anos 1990, com grande controvérsia e elaboração de várias teorias explicativas, sobretudo genéticas e hormonais. A controvérsia tem origem, sobretudo, porque uma possível explicação biológica da homossexualidade remete para a grande questão que, durante séculos e nas várias culturas, tem acompanhado a homossexualidade: é doença ou é pecado? A existência de uma base biológica seria uma espécie de “desculpabilização” da homossexualidade, com provável aumento da tolerância e aceitação dos homossexuais em muitas sociedades.

As evidências disponíveis sugerem que os fatores hormonais não são determinantes para a homossexualidade, embora possam estar presentes. Pelo contrário, parecem existir fatores genéticos, mas totalmente aleatórios, com um papel na determinação da sexualidade da mesma forma que é determinado, por exemplo, o ser-se canhoto. Ou seja, não existe um gene da homossexualidade, mas parecem existir genes que estão correlacionados com a homossexualidade, no sentido que aparecem em homossexuais e não em heterossexuais.

As teorias psicobiológicas da homossexualidade alicerçam-se em alguns trabalhos sérios. Em 1991, Simon LeVay, neurobiólogo americano, colocou em evidência uma particularidade anatómica presente no cérebro dos homossexuais masculinos. Em 1993 o Dean Hamer, geneticista americano, atribuía a uma zona do cromossoma sexual denominada Xq28 a possível origem da homossexualidade masculina. Também entre 1991 e 1993, o psicólogo Michael Bailey e o psiquiatra Richard Pillard, estudaram a orientação sexual de irmãos gémeos, idênticos e não idênticos, com resultados que sugeriam a existência uma forte componente genética. Em 1994, a Associação Americana de Psicologia postulou que a investigação científica sugeria que a orientação sexual fica determinada desde muito cedo no ciclo da vida, possivelmente mesmo antes do nascimento. Em 2005, os investigadores Glenn Wilson e Qazi Rahn publicaram a obra “Born Gay: The Psychobiology of Sex Orientation”, onde concluíram que a orientação sexual é determinada por uma combinação de factores genéticos e hormonais e que as vivências na infância, o ambiente familiar, a educação e escolha pessoal têm pouca ou nenhuma influência no assunto. Ou seja, as pessoas homossexuais nascem homossexuais.

Se a procura de gene, ou genes, responsáveis pela homossexualidade é de algum modo decepcionante, porque não definitiva, a hipótese de uma causa hormonal ainda é mais frustrante. Havendo evidencia na importância das hormonas pré-natais nas situações de intersexualidade e de transexualidade, em relação à homossexualidade nenhum hipótese se mostrou conclusiva. De maior impacto foi apenas a publicação, em 1998, de investigadores da Universidade do Texas, que afirmaram ter identificado uma particularidade nas orelhas de mulheres lésbicas, associada geralmente ao sexo masculino, tendo sugerindo esta diferença como estando relacionada com a exposição do feto a determinadas hormonas, que por sua vez também actuariam sobre certas partes do cérebro com influência na orientação sexual. Em 2005, foi publicado um estudo do Instituto Karolinska, na Suécia, que detectou através de PET, que os homens homossexuais têm uma resposta fisiológica às feromonas masculinas semelhante à das mulheres heterossexuais. Tudo muito pouco conclusivo.

Resumindo, ainda há cerca de 30 anos era defendida a teoria do “heterossexismo”, em que todos nascem heterossexuais e que a homossexualidade é uma escolha, o que permitia defender que os homossexuais podiam ser “tratados”, isto é, persuadidos a voltar a ser heterossexuais. Hoje é quase consensual que ninguém escolhe a sua sexualidade. Mas embora se reconheça a presença de fatores genéticos, os verdadeiros mecanismos explicativos da homossexualidade ainda não são cabalmente conhecidos.

Autor: 
Nuno Monteiro Pereira - Urologista e Professor de Sexologia
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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