Dor Crónica atinge 40% da população adulta

«Várias vezes me disseram que era eu que estava a imaginar a dor»

Estima-se que, em Portugal, cerca de 40% da população adulta sofra de dor crónica. Uma condição que atinge, sobretudo, mulheres ou grupos populacionais mais vulneráveis e que é, quase sempre, subvalorizada. Diana Azevedo convive com a patologia há pouco mais de um ano. O diagnóstico chegou 9 meses após os primeiros sintomas. “Mesmo depois de chegarem a um diagnóstico, alguns especialistas continuaram a desvalorizar a minha dor”.

A dor crónica é geralmente definida como uma dor persistente ou recorrente durante pelo menos 3 a 6 meses, que persiste para além da cura da lesão que lhe deu origem, ou que existe sem lesão aparente.

Apesar de nem sempre existir uma causa óbvia para a dor, sabe-se que esta atinge sobretudo o sexo feminino e que a idade é um importante fator de risco, a par do excesso de peso ou obesidade.

Entre as principais causas estão doenças como o cancro, diabetes ou artrose, bem como os traumatismos ou posições forçadas e incorretas. Esta pode ainda estar associada a um período de pós-operatório ou surgir sem causa aparente.

Diana Azevedo tem 38 anos e há cerca de ano e meio sofre de dor crónica. Uma condição que tem limitado a sua vida pessoal e profissional. “Sou bailarina e professora de dança e tive que parar de trabalhar completamente durante nove meses”, começa por dizer.

No seu caso, a dor atinge toda a parte superior do corpo – cabeça, face, pescoço, ombros, braços, zona cervical e omoplatas – e é causada por vários problemas estruturais. “O primeiro, devido a um acidente rodoviário que tive há cerca de 11 anos, é uma hérnia cervical e 5 ou 6 protusões ao longo de toda a coluna. Essa hérnica cervical está a prender o nervo mediano no meu braço direito e causa-me dores intensas no pulso, braço e omoplatas”, explica.

Diana sofre ainda de uma luxação na articulação temporomandibular, causada por má articulação das maxilas inferior e superior, que lhe causa dores “insuportáveis” na face. A combinação destes problemas desencadearam, como explica, um processo de dores “agudas intensas e constantes” ao longo de vários meses. “Alguns dias essas dores viajavam por todo o corpo e variavam entre picadas, queimaduras, choque elétricos ou paralisias momentâneas”, refere.

A angústia da dor levou-a a recorrer a vários médicos que, sem resposta, demoraram cerca de nove meses a chegar a um diagnóstico. “Fui acompanhada por três equipas profissionais no Hospital de Gaia – Neurocirurgia, Cirugia Maxilofacial e Consulta da Dor. Após vários meses a fazer exames, a ir a consultas semanais (por vezes, duas vezes por semana) e a várias consultas da urgência, conseguiram chegar ao diagnóstico final”, conta revelando que, entre a primeira consulta e a certeza de que padecia de dor crónica, passaram nove meses. “Durante este processo consultei também vários profissionais e realizei vários exames no sistema privado”, admite.

Por não ser facilmente compreendida, Diana admite que, mesmo depois do diagnóstico, sentiu que a sua condição não foi valorizada. “Durante os meses em que os especialistas não conseguiam chegar a um diagnóstico, várias vezes me disseram que era eu que estava a imaginar essas dores. Que não se justificava ter dores tão intensas com os problemas que parecia apresentar. Mesmo depois de chegarem a um diagnóstico, alguns especialistas continuaram a desvalorizar a minha dor”, revela acrescentando que, na sua opinião, muitos clínicos não estão “preparados” para uma problemática que atinge milhares de pessoas em todo o mundo.

Incapacidade física e/ou funcional, afastamento social ou perturbação do sono – que chega a atingir 90% dos doentes – são algumas das principais consequências da dor. Vários são os estudos que demonstram uma diminuição bastante significativa da saúde física e mental dos pacientes.

“As repercurssões a nível profissional, no meu caso, foram gigantescas. Recomecei a dançar em setembro de 2017 mas, infelizmente, às vezes não consigo dar aulas porque estou novamente com dores e só consigo ficar deitada a descansar o dia todo”, comenta acrescentando que, como trabalha por conta própria,  teve de “viver à custa de familiares” durante os nove meses em que não pôde trabalhar.

Também a nível social e familiar afirma ser díficil gerir emoções. “Custa-me muito ver a dor que as pessoas mais próximas sentem por não me conseguirem ajudar. Apesar de estarem sempre presentes, sinto que esta situação os esgota cada vez mais e que se sentem impotentes perante a minha situação”, comenta.

Yoga e pilates: estudos apontam atividades como arma de combate à dor crónica

Vários estudos internacionais têm apontado o yoga e o pilates como duas atividades que mais ajudam a combater a dor crónica, do mesmo modo que a acupunctura e as massagens terapêuticas que contribuem para o alívio dos sintomas.

No entanto, devido à sua complexidade, a dor crónica requer abordagens diferenciadas e complementares, como tratamento físico e psicológico e terapêutica farmacológica onde se inclui uma gama alargada de medicamentos para alívio da dor (analgésicos).

Acompanhada pela Consulta da Dor desde o diagnóstico, Diana Azevedo já utilizou vários medicamentos e admite que nenhum “funciona completamente”. “Há dias em que ajudam um pouco, mas a maioria das vezes não surtem qualquer efeito”, diz desapontada.

Na tentativa de atenuar a dor já fez fisioterapia e decidiu, paralelamente ao tratamento indicado pelos especialistas, fazer acupunctura,  meditação e pilates. “Já faço esta terapia (acupunctura) há mais de um ano e tem sido a única prática que me ajuda verdadeiramente”, revela admitindo que se esta “não fosse tão pesada financeiramente e pudesse fazer diariamente”, não hesitaria.

“Estas terapias, complementadas com a minha atividade profissional – a dança – permitiram-me encontrar uma forma mais orgânica de lidar com o meu dia-a-dia e encontrar forças para voltar a trabalhar e viver da melhor forma possível, com mais otimismo, perseverança e muita paciência e compaixão para comigo mesma”, revela.

Para além disso, Diana revela ter cuidado com a alimentação, um dos aspetos que considera de extrema importância para qualquer doente, e não descura a prática de exercício físico.

“O exercício físico, para mim, é a melhor terapêutica deste processo de recuperação. Quando dou as minhas aulas e danço, quase não sinto dores”, afirma.

Associação Força 3P: acesso gratuito a consultas é uma forma de apoiar os doentes

Com pouco mais de um ano de existência, a Associação Força 3P trabalha no sentido de apoiar aqueles que sofrem de Dor Crónica. “No momento mais crítico do meu processo encontrei a Força 3P. Conheci pessoas que viviam diariamente com a mesma situação que eu, que compreendiam melhor do que ninguém aquilo que eu estava a passar e que eram compassivas consigo próprias e com os outros”, comenta admitindo que foi com a sua ajuda que conseguiu sair da “escuridão”.

Entre as principais iniciativas, esta associação “tem vindo a construir uma rede de contatos, possibilitando aos sócios uma série de descontos nas mais diversas áreas terapêuticas”.

Foi assim que Diana chegou ao Centro de Reabilitação de Gaia, onde teve acesso gratuito a consultas de psicologia. “Esse profissional fez um trabalho incrível comigo e ajudou-me a encontrar paz de espírito e positividade na minha vida”, afirma. “Graças a esta associação, ao psicólogo, à minha acupunctura e às pessoas que me são próximas, hoje já consigo ter uma vida ativa e viver a maioria dos dias sem dor”, conclui.

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
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