Bexiga Hiperativa

Sensação urgente de urinar afeta 32% da população

Definida por um conjunto de sintomas relacionados com a bexiga, que se contrai de forma descontrolada, a Síndrome da Bexiga Hiperativa, caracteriza-se pelo desejo súbito e incontrolável de urinar, que afeta mais de 30 por cento dos portugueses. Por vergonha, esta patologia é, muitas vezes, subdiagnosticada.

Estima-se que, em todo o mundo, entre 10 a 17 por cento da população seja afetada por uma condição que ainda causa algum embaraço. A bexiga hiperativa, que se caracteriza por um desejo súbito e forte de urinar, “díficil de controlar e que pode ou não ser acompanhado de perda involuntária de urina”, ainda é um tabu e, por esse motivo, acaba por ser subdianosticada e vivida em silêncio.

Em Portugal esta síndrome apresenta uma taxa de 32 por cento, sendo a sua prevalência “semelhante entre homens e mulheres”.

“No entanto, a bexiga hiperativa com incontinência urinária associada é mais frequente nas mulheres”, começa por explicar Geraldina Castro, especialista em Ginecologia e Obstetrícia da Maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra.

A verdade é que, embora exista sempre o sintoma de urgência miccional, “da vontade imperiosa de urinar”, nem sempre a perda de urina lhe está associada. “Quando os doentes não conseguem controlar esta vontade e perdem urina antes de chegar à casa de banho então diz-se que têm incontinência de urgência associada. Desta forma, a incontinência urinária de urgência é um sintoma da bexiga hiperativa”, esclarece a especialista.

As complicações desta síndrome estão, sobretudo, relacionadas com o impacto negativo na qualidade de vida do doente. “Dependendo da intensidade dos sintomas, a bexiga hiperativa pode alterar por completo a vida de uma pessoas, condicionando a disrupção da vida diária e profissional. Ela afeta negativamente a qualidade de vida de um doente a nível físico (com limitação da atividade física), sexual, psicológico (causando ansiedade, baixa autoestima, depressão), doméstico (necessidade de pensos ou fraldas), laboral e social (através da restrição da interação social)”, explica Geraldina Castro.

Na origem da síndrome podem estar doenças neurológicas, como a Esclerose Múltipla, Parkinson, doença cerebrovascular ou lesões da medula. “Alterações da própria bexiga, do seu músculo  e dos orgãos adjacentes podem também causar esta doença”, adianta a especialista. No entanto, na maioria dos casos não se consegue determinar a sua causa, pelo que esta acaba por ser designada de “bexiga hiperativa idiopática”.

O seu diagnóstico é feito com base nos sintomas e após a exclusão de infeção urinária ou outra patologia, como a diabetes ou cancro da bexiga.

“O diagnóstico, na maioria dos casos, é feito após uma colheita da história clínica (com questões acerca de outra doenças que possam estar presentes, medicação habitual, padrões de micção) um exame físico, com exame ginecológico no sexo feminino, e uma análise à urina. Os casos mais complexos poderão ter de ser encaminhados para um especialista e submetidos a outros exames específicos”, revela a ginecologista.

Tratando-se de uma doença crónica, “o que significa que não é curada”, pode, no entanto, ser controlada “com as diversas armas terapêuticas disponíveis”.

“Esta patologia pode ser tratada com alterações no estilo de vida, tais como, diminuição da ingestão de determinadas bebidas que causam irritação da bexiga, suspensão tabágica e redução do peso”, afirma a especialista da Maternidade Bissaya Barreto.

Bebidas com cafeína (café ou chá preto), bebidas gaseificadas e alcoólicas devem, por isso, ser evitadas. Além de que, “nos doentes com ingestão de líquidos elevada (superior a dois litros por dia) esta deverá ser restringida, principalmente à noite”.

No capítulo dos alimentos a evitar, encontra-se o chocolate, o tomate e os citrinos. “Alimentos condimentados ou ácidos podem causar irritação da bexiga”, justifica a médica.

Também o exercício físico tem um papel importante no controlo da patologia. “O exercício físico é importantíssimo para a saúde e bem estar geral. No caso particular da bexiga hiperativa, o exercício físico com vista a combater o excesso de peso e o fortalecimento dos músculos do pavimento pélvico vão contribuir para o controlo desta doença”, acrescenta.

Por outro lado, as técnicas de treino da bexiga e os exercícios pélvicos poderão ajudar a atenuar os sintomas. “Nos episódios de urgência, a contração dos músculos do pavimento pélvico, de forma sustentada, pode atenuá-la ou fazê-la desaparecer”, afirma a especialista.

No entanto, quando as medidas comportamentais e os exercícios, por si só, não são suficientes para resolverem o problema, é necessária a introdução de medicação específica.

“Os medicamentos disponíveis no mercado vão atuar nos recetores da bexiga. Ao promoverem o relaxamento do músculo da bexiga, vão aumentar a capacidade de armazenamento da urina e diminuir as contrações involuntárias deste músculo. Desta forma, os sintomas de urgência e a necessidade de esvaziar a bexiga irão diminuir”, esclarece Geraldina Castro.

Apenas as situações muito graves, que não respondem a nenhum dos outros tratamentos disponíveis, é que são propostas para terapêuticas cirúrgicas.

Importa ainda referir que, sendo esta uma doença crónica, ela “poderá ter períodos de ausência completa e outros de agravamento” que vão exigir do paciente maior empenho na adoção de um estilo de vida saudável.

No entanto, de acordo com a especialista, “os avanços na medicina também se fazem sentir nesta área e as opções terapeuticas têm aumentado ao longo do tempo”.

Por isso, “se uma pessoa acha que tem sintomas de bexiga hiperativa e que ela condiciona a sua vida, deve pedir ajuda ao seu médico”.

“Não faz sentido viver este problema sozinho”, reforça Geraldina Castro.

 

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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