Ataques de pânico

Quando o pânico toma conta da nossa vida

Palpitações, tremores, respiração acelerada, tonturas ou dor torácica e abdominal são alguns dos sintomas mais frequentes de um ataque de pânico. Um episódio que surge de forma súbita e intensa, e que atinge mais de um terço dos adultos. Maria, Filipa e Ricardo vivem em alerta constante. “O mais assustador é nunca saber se volta a acontecer, ou em que circunstâncias. Podemos estar em casa com os amigos, no trabalho, no supermercado”.

Apesar de não se saber ao certo o que pode desencadear um ataque de pânico, pensa-se que a genética, a personalidade, a alteração no funcionamento de algumas zonas do cérebro ou a influência de stress intenso possam ser importantes fatores condicionantes para o seu desenvolvimento.

Na maioria dos casos, os ataques de pânico manifestam-se apenas em um ou dois episódios ao logo da vida. E o stress é quase sempre o culpado.

Menos comuns são os casos de pânico patológico, que atingem cerca de 1% da população, e que consistem em episódios recorrentes, muitas vezes incapacitantes.

Maria teve o seu primeiro ataque de pânico no verão de 2011 ao atravessar a ponte 25 de Abril. “Se calhar até nem foi o primeiro mas foi o único que se manifestou fisicamente… sempre ouvi dizer que era tudo psicológico”, começa por dizer.

Sem aviso, o coração disparou e todo o lado esquerdo do seu corpo começou a ficar dormente. “Comecei a perder os sentidos como se fosse desmaiar e, sem saber explicar porquê, desatei a gritar como se me estivesse a dar ordens: tu consegues, está quase, tu consegues”, recorda acrescentando que, assim que atravessou a ponte, parou o carro e chorou compulsivamente. “Foi a última vez que fiz aquele percurso ao volante e, hoje, passados sete anos tenho os meus mecanismos para o fazer enquanto passageiro”.

Depois deste episódio fez vários exames médicos. “Porque até se pôs a hipótese de ter sofrido um AVC”, adianta revelando que acabou por fazer psicoterapia durante mais de um ano. “Mas nada nem ninguém me convence que sou capaz de ultrapassar este episódio. Nunca mais vou conseguir atravessar aquela ponte a conduzir”, diz categoricamente, sem que, até hoje, consiga encontrar o motivo de ter ficado com tanto medo. “Posso atribuir esse evento, que me condiciona até hoje, a vários factos que ocorreram ao longo a minha vida, mas não o compreendo. Nunca consegui ir ao fundo da questão para a resolver”, admite.

Com o tempo foi arranjando estratégias para conseguir atravessar o rio. Utilizar a Ponte 25 de Abril é que nunca mais! “Há sete anos que uso a Ponte Vasco da Gama… nem sempre consigo entrar à primeira – saio, dou a volta à rotunda de Moscavide e entro. Tive algumas situações em que achei que poderia voltar a acontecer o mesmo, mas imediatamente falo para mim e consciencializo-me que sou capaz. Encontrei formas de defesa, como fazer um telefonema e manter-me distraída durante o percurso”, acrescenta Maria que admite o quão stressante e condicionante esta sua “limitação” pode ser. “Esta situação condiciona-me muito mas o medo supera qualquer tentativa de contrariar esta impotência. O que me aconteceu comprometeu a minha segurança e a dos condutores que passavam a ponte naquele momento”, lamenta.

«Literalmente, eu não consegui sair de casa»

Filipa sempre foi ansiosa. “Já em miúda parecia que estava sempre a antecipar tudo o que poderia acontecer. Era como se vivesse sempre com a cabeça no futuro para não ter nenhuma surpresa. E tudo o que implicava algum tipo de mudança no meu dia-a-dia deixava-me nervosa”, recorda a jovem advogada. No entanto, foi já em adulta que soube o que era ter um ataque de pânico. “Aliás, eu não tive um, tive vários”, confessa.

Tremor, suores, palpitações, náuseas ou uma sensação de medo paralisante foi o que sentiu durante estes episódios. “Eu sempre trabalhei bem sobre stress. Aliás, sempre disse que era neste ambiente que trabalhava melhor…. A única coisa com a qual eu não conseguia lidar era com a crítica destrutiva, com a pressão que algumas chefias colocam nos seus colaboradores, de propósito para que estes se sintam mal”, justifica.

No seu caso, os ataques de pânico surgem na sequência do mau ambiente que vivia na sociedade de advogados onde trabalhava. “Não consigo perceber o porquê de tanta implicância, mas a verdade é que as coisas chegaram a um ponto em que eu não podia abrir a boca. Tudo o que eu dizia, tudo o que eu fazia era motivo para desencadearem uma enorme pressão em mim. Às tantas tomei aquilo como um ataque pessoal e perdi a lucidez”, afirma.

A sentir-se como um alvo a abater, vieram ao de cima as suas principais inseguranças. “Comecei a sentir-me completamente insegura, em relação ao meu trabalho, em relação a mim mesma… eu que sempre fui bastante assertiva”, recorda.

Um dia não conseguiu sair de casa para ir trabalhar e foi aí que percebeu que algo tinha de mudar. “Eu adormecia a pensar que no que poderia acontecer no dia seguinte, no que me poderiam dizer. E isso criava em mim uma enorme ansiedade. Cheguei a passar noites em claro, com o coração a querer sair-me do peito”, descreve.

Numa dessas manhãs, sentiu uma vontade incontrolável de chorar. Gritou e acabou por ficar imóvel no sofá. “Parecia que tinha enlouquecido. A minha cabeça latejava enquanto pensava em mil e uma desculpas para faltar ao trabalho. Estava no meu limite”, confessa.

O despedimento foi a solução mais rápida. Seguiram-se meses de psicoterapia e controlo antidepressivo. “Fiz medicação, é verdade, para ajudar a controlar a minha ansiedade. E a psicoterapia foi importante para perceber de onde vem a minha ansiedade, ou porque permito que alguém exerça tanto poder sobre mim com a sua opinião… É uma coisa que tenho de trabalhar porque ainda não está bem resolvida”, acrescenta Filipa.

“O mais assustador é nunca saber se volta a acontecer, ou em que circunstâncias. Podemos estar em casa com os amigos, no trabalho, no supermercado”, revela quanto a forma como os ataques de pânico podem surgir.

«Ainda hoje, há dias em que não consigo entrar no carro»

Ricardo ficou gravemente ferido num acidente de automóvel. O melhor amigo e a namorada perderam a vida a caminho do hospital. Tinham todos pouco mais de 20 anos. “Foi um dia que jamais irei esquecer, apesar de não me lembrar do que aconteceu depois do camião ter embatido no nosso carro”, começa por dizer.

O acidente que mudou a sua vida, ainda hoje, condiciona o seu dia-a-dia, não só fisicamente – “porque fiquei com algumas mazelas” – mas também psicologicamente.
“Estive em coma… Foi um processo de recuperação muito longo. E, durante vários anos, não consegui conduzir. Só a ideia de entrar num carro me deixava ansioso”, tenta explicar admitindo que foi com a ajuda da psicoterapia que, aos poucos, foi perdendo o medo.

“Uma coisa como a que eu vivi, nunca se esquece. É preciso reaprender a viver e confrontar o medo… o que não é fácil! O trabalho psicológico aqui é muito importante, e no meu caso tem vindo a ser contínuo”, admite.

A verdade é que foram precisos mais de 10 anos para conseguir voltar a conduzir. “No dia que me voltei a sentar ao volante de um carro tive um ataque de pânico, sim… Foi a pior sensação da minha vida, depois do acidente. Hiperventilei, senti que o meu coração ia sair disparado pela boca, transpirei como nunca na vida e senti um medo inexplicável…”, revela adiantando que, infelizmente, este não foi um evento isolado. “Já tive outros, noutras circunstâncias e, ainda hoje, há dias em que não consigo entrar no carro. No meu ou no dos outros”, afirma.

“Os meus amigos já percebem quando estou a entrar em pânico. Às vezes fazemos uma caminhada para eu me acalmar, respirar bem fundo, e fazer uma nova tentativa para conduzir ou ser conduzido”, revela Ricardo.

Apesar de não acontecer com a mesma frequência de há 10 anos, estes eventos ainda condicionam muito a sua vida. “Se algum dia vou deixar de «panicar»? Não faço ideia, mas “trabalho” isso”, afirma lamentando apenas que, de um modo geral, os outros não entendam que “isto não acontece só aos maluquinhos”. “Eu sou, e sempre fui uma pessoa saudável, física e mentalmente. Tive o azar de ter um acidente que mudou a minha vida e que, ainda hoje, mexe com o meu inconsciente. Mas pode acontecer a qualquer um, e em circunstâncias banais da vida”, conclui.  

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, três em cada 10 pessoas sofrem de ataques de pânico em todo o mundo, tratando-se este de um problema grave de saúde mental que precisa ser atendido, discutido e tratado. 

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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