Artigo de Opinião

“O Médico de Família tem de trabalhar por vocação”

O médico de Família compromete-se com a pessoa, e não com um conjunto de conhecimentos, técnicas especiais ou grupo de doenças. E este compromisso não tem prazo: não termina com a cura da doença ou o fim do tratamento.

Desde que me recordo que sempre quis ser médico. Ou melhor, o meu sonho era ajudar os outros, e foi com esse objetivo que entrei no curso de Medicina. Quando chegou a altura de decidir a especialidade, primeiro pensei em Pediatria, e ainda equacionei Psiquiatria ou Oncologia. Mas descobri, nessa altura, que poderia ser tudo isso na Medicina Geral e Familiar. Optei então por ser Médico de Família. O médico que vai a casa, o que faz urgências, o que faz de “psicólogo”, o que tem de saber ouvir e saber falar, dar a mão na altura certa, o que sabe muito sobre muitas doenças, o que partilha os doentes com outros colegas, o que está sempre a falar de prevenção e promoção de saúde.

Há um conjunto de princípios que, não sendo exclusivos da medicina familiar, representam uma visão global, um sistema e uma abordagem de valores que a tornam diferente das outras especialidades médicas. O Médico de Família tem de trabalhar por vocação. Já não somos o “Médico da Caixa”, não somos só o “Clínico Geral”. Somos o especialista na consulta, na pessoa e na sua família.

Tive a sorte de ter feito a especialidade com uma médica orientadora, a Drª Gabriela Fernandes, entretanto já reformada, que me ensinou a paixão inexplicável por esta especialidade única e tão recompensadora a nível profissional e pessoal.

O médico de família compromete-se com a pessoa, e não com um conjunto de conhecimentos, técnicas especiais ou grupo de doenças. Este compromisso tem duas vertentes: o médico está disponível para qualquer problema de saúde, em qualquer pessoa, de qualquer idade ou sexo, sem se limitar a um problema definido. E este compromisso não tem prazo: não termina com a cura da doença ou o fim do tratamento.

O meu compromisso com os meus pacientes é assumido quando a pessoa vem pela primeira vez à minha consulta. E aqui quero reforçar uma ideia: os médicos de família não são só para pessoas idosas, não são só para quando estamos doentes. Um médico de família é para todos e durante todo o percurso de vida.

Na primeira consulta gosto de conhecer os meus pacientes. De saber a sua história, onde trabalham ou trabalharam, como é o seu dia a dia, as suas alegrias e preocupações. Com os meus pacientes crio uma ligação duradoura, e acredito cada vez mais que esta relação médico/doente é particularmente importante na medicina familiar. Doenças benignas e muito frequentes tornam-se «interessantes» porque ocorrem numa determinada pessoa conhecida, da qual já conheço o seu histórico, o seu corpo, a forma como reage a cada problema.

Depois de exercer durante alguns anos, comecei a sentir na pele o que já me tinham dito alguns médicos com bastante mais experiência: o médico de família interessa-se pelos seus doentes de um modo que transcende a doença de que eles possam sofrer.

Como médico de família, procuro entender o contexto da doença. Muitas das patologias observadas em medicina geral e familiar não podem ser entendidas se não forem vistas no seu contexto pessoal, familiar e social. A importância do contexto pode ser comparada à peça do puzzle que só tem significado quando encaixada no seu lugar próprio... Quando o doente é internado num hospital, grande parte do contexto da doença desaparece. A atenção de quem o cuida está focada principalmente no que acontece e não tanto nas circunstâncias em que aconteceu. A consequência, muitas vezes, é uma visão limitada do problema.

Gosto de encarar o contacto com os meus doentes como uma oportunidade de educar na saúde e para a prevenção. O meu maior empenho, todos os dias, é manter os meus doentes o mais saudáveis possível e conscientes da sua doença, e transmitir-lhes de que forma podem alimentar-se, mexer-se, tomar conta de si, para que a doença não lhes venha bater à porta.

O perfil profissional do médico de família coloca-o numa posição-chave na prevenção das doenças cardiovasculares, psiquiátricas, oncológicas e outras. Ao não ter um foco exclusivo na doença, o médico de família cria um espaço de intervenção propício à promoção da saúde e à prevenção de patologias.

Eu vejo o médico de família como a base de uma rede comunitária de centros de apoio e prestação de cuidados de saúde. Todas as comunidades têm uma estrutura de apoios sociais, estatais e não-estatais, formais e informais. A palavra estrutura sugere um sistema coordenado, mas infelizmente não é esse o caso; muito frequentemente os profissionais dos serviços de cuidados de saúde e sociais, incluindo os médicos, trabalham em compartimentos estanques sem qualquer noção do sistema na sua totalidade. Quando os médicos de família conhecem e conseguem gerir todos os recursos da comunidade em benefício dos seus doentes, podem ser muito eficazes. Podem fazer a diferença. 

*João Carlos Ramos, especialista em Medicina Geral e Familiar, conhecido pela rubrica “Médico de Família” no programa da Rtp ‘Agora Nós’, estreou a 6 de Fevereiro de 2016 o seu próprio programa ‘Diga Doutor’.

É ainda autor do livro ‘Um Médico para toda a Família’ e prepara-se para lançar, ainda este ano, um novo título. 

 

Dr. João Carlos Ramos – Especialista em Medicina Geral e Familiar
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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