Transplante do Pulmão

Falta de informação, apoio emocional e equipamentos técnicos são as principais carências do doente transplantado

O transplante pulmonar é considerado o mais complexo na área da transplantação. Em Portugal existe apenas um centro de referência nesta área - o Hospital de Santa Marta, que em 2017 realizou 30 transplantes do pulmão. Por se tratar de uma cirurgia delicada é necessário que o doente tome consciência dos riscos que comporta, no entanto, de acordo com a Associação de Transplantados Pulmonares de Portugal, a falta de informação, de apoio emocional ou de equipamentos técnicos antes e depois do transplante revelam-se os principais desafios.

Em 2017 realizaram-se, em Portugal, 30 transplantes pulmonares e estima-se que existam ainda entre 45 a 50 doentes em lista de espera. A complexidade da cirurgia, aliada ao facto de se tratar de um órgão extremamente delicado, sendo apenas possível utilizar 33% dos órgãos doados, faz com que apenas uma pequena percentagem de doentes possa ser tratado com este recurso.

Também por este motivo, o processo de seleção quer do dador, quer do doente transplantado é exigente e deve obedecer a vários critérios. Isto significa que nem todos os órgãos servem e nem todos os doentes têm indicação para a cirurgia. A compatibilidade entres os dois também pode ser um desafio.

De acordo com critérios internacionais, instituídos pela International Society for Heart and Lung Transplantation, estabelece-se que o dador ideal deve ter menos de 55 anos, sem trauma torácio, sem história de asma ou neoplasia e ser, preferencialmente, não fumador (no limite <20 UMA - Unidades Maço Ano).

Do lado do paciente, “a transplantação pulmonar está indicada em doentes com doença pulmonar crónica terminal que estejam sob terapêutica médica otimizada, para as quais não exista outra alternativa e que não apresentem contraindicações absolutas como neoplasia, disfunção grave de outro órgão, infeção crónica não controlada, obesidade, tabagismo ativo ou outras dependências ou ainda situação clínica instável”, explica Ricardo Pires, presidente da Associação de Transplantados Pulmonares de Portugal (ATPP)

A insuficiência respiratória crónica, nomeadamente em contexto de fibrose pulmonar, a doença pulmonar obstrutiva e a fibrose quística são as principais razões clínicas que justificam o transplante pulmonar, sendo que “estas patologias podem ser curadas após o transplante se circunscritas apenas aos pulmões e no caso de ser bipulmonar”.

Principais cuidados e desafios antes e depois do transplante

O doente candidato a transplante deve seguir sempre as indicações da equipa de transplante a fim de estar apto para uma cirurgia que pode surgir a qualquer instante. “É importante que siga o plano de sessões de fisioterapia e cinesioterapia, para controlar a sua condição física e respiratória, minimizando também a ansiedade, e que mantenha um estilo de vida saudável, dentro das suas limitações”, explica o representante da ATPP.

Depois do transplante o principal cuidado é evitar a rejeição. Daí que o plano terapêutico estabelecido, onde está incluída a medicação imunossupressora, seja de extrema importância. “Estes fármacos devem ser tomados na dose indicada e na hora indicada”, afirma Ricardo Pires.

O doente deve ainda realizar todos os exames requisitados e ser observado na consulta de transplante pulmonar de acordo com as marcações agendadas.

Após esta cirurgia, e depois de um período de reabilitação respiratória – estima-se que os doentes fiquem, em média, 35 dias em regime de internamento – o paciente pode regressar a casa mantendo vários cuidados, entre eles, evitar o contato com quem possa ter doenças infeciosas ou usar máscara em locais público ou fechados.

O cuidado com a alimentação, evitando o consumo de sal, açúcar e gorduras, bem como carnes mal passadas, aliada à prática de exercicío físico regular são outros dos principais conselhos, que  devem contar com o envolvimento de toda a família. “Além de cuidadora a família também tem de aprender as novas regras e colaborar com o transplantado no seu cumprimento”, advoga o presidente da ATPP. É que um dos principais desafios destes doentes recai sobre a disciplina no que toca ao rigor pós-operatório.

Por outro lado, “o doente transplantado precisa ter a consciência que, devido à sua condição de imunossuprimido, é mais propício a infeções e situações de risco, que podem originar qualquer intercorrência”, acrescenta.

A Associação de Transplantados Pulmonares de Portugal nasce, deste modo, como uma associação sem fins lucrativos, com vista a ajudar, apoiar, informar e defender os direitos das pessoas que estejam em situação pré-transplante ou transplantados pulmonares e suas famílias/cuidadores.


Ricardo Pires, presidente da ATPP, foi submetido a um transplante bipulmonar, aos 37 anos, depois de lhe ter sido diagnosticada uma Fibrose Pulmonar Idiopática

De acordo com Ricardo Pires, presidente desta associação, “é notória a falta de informação e de bens materiais que possam facilitar a vida dos doentes para que estes se mantenham ativos e independentes o maior tempo possível” na fase pré-transplante.

Para colmatar esta carência, a ATPP propõe-se a facultar apoio, informação credível e acessível acerca do transplante pulmonar e seu processo de recuperação. Por outro lado, “está a organizar um banco de ajudas técnicas que tem como objetivo facultar equipamentos que possam ser necessários, como cadeiras de rodas, cadeirões de repouso, equipamentos de reabilitação respiratória, entre outras ajudas”.

O apoio emocional é outro aspeto importante que a associação pretende reforçar. “Acreditamos que apesar de toda a informação, esclarecimentos e apoio que a equipa de transplante pulmonar do Hospital de Santa Marta fornece ao doente e cuidadores, a transmissão direta de um testemunho na primeira pessoa ajudará a suportar melhor todo este processo”, começa por justificar Ricardo, também ele transplantado. “O apoio emocional também se torna fundamental (na fase pós-transplante) principlamente em situações de retrocesso, ou seja, quando surgem complicações ou intercorrências que acabam por abater um pouco a pessoa que achava estar finalmente livre e saudável”, acrescenta.

Sensibilizar a opinião pública para esta matéria é também um dos principais objetivos  de ação cívica desta Associação que foi criada em março de 2017 e que espera, no futuro, “construir” uma casa para alojar os doentes que chegam de outras partes do país para tratamento. Afinal, a sua missão é melhorar a qualidade de vida daqueles que, tal como Ricardo Pires, tiveram uma segunda oportunidade de vida com o transplante. 

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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