A cirurgia da catarata

Facoemulsificação: a técnica cirúrgica mais eficaz contra a catarata

Estima-se que cerca de 170 mil portugueses sofram de catarata. Caracterizando-se pela perda progressiva da transparência do cristalino, afeta sobretudo os mais idosos como consequência do processo normal de envelhecimento. A cirurgia é a única forma de tratamento que consiste na substituição da lente natural afetada. A facoemulsificação é, hoje, a técnica mais usada em todo mundo, não só pela sua eficácia mas também porque comporta poucos riscos.

A catarata consiste na opacificação do cristalino, uma estrutura que se parece com uma lente, localizada dentro do olho, e cuja função é focalizar a imagem dos objetos à retina. É por isso que, habitualmente, quem sofre de cataratas se queixa de ter a “vista enevoada”. É que, quando o cristalino fica opaco a imagem não se forma de maneira adequada na retina.

“A causa mais frequente é a relacionada com a idade. Assim, quanto maior for a idade, maior a probabilidade de ter cataratas”, explica Rui Martinho, um dos mais conceituados especialista em oftalmologia do país.

Sendo mais frequente nas faixas etárias acima dos 60 anos, apresenta uma taxa de prevalência “de 50 por cento entre os 65 e os 74 anos e de 70 por cento acima dos 75”.

Não obstante o facto de ser associada ao processo normal de envelhecimento, casos há, embora raros, que possam surgir ao nascimento: “são as cataratas congénitas”.

“Algumas estão ainda associadas a algumas doenças como a diabetes, doenças de pele e até como efeito secundário de medicamentos como a cortisona”, acrescenta o especialista do Hospital Lusíadas do Porto.

Entre os principais sintomas destacam-se a perda de qualidade e da capacidade visual. “Esta perda é geralmente lenta e progressiva”, refere Rui Martinho. No entanto, esta evolução varia de caso para caso, havendo registo de doentes que perdem a visão muito rapidamente.

“Pode atingir a visão de longe ou a de perto e o contraste e percepção das cores também são alterados”, acrescenta, explicando ainda que, caso a catarata só apareça num dos olhos, e se o paciente for menos atento, “pode não se aperceber da perda de visão”. Sensibilidade à luz ou visão dupla são outros dos sintomas de um problema ocular que pode conduzir à cegueira.

Não havendo uma forma de a prevenir, “já que a causa principal é a idade, há, no entanto, um tipo de cataratas mais associadas à exposição solar pelo que se preconiza a proteção da radiação solar”. São, por isso, considerados grupos de risco aqueles cujas profissões estejam muito expostas à radiação solar ou à radiação infravermelha (como é o caso dos trabalhadores da indústria vidreira, por exemplo) e altos míopes.

O diagnóstico é feito por um especialista de Oftalmologia “que observa o olho do paciente com um aparelho chamado biomicroscópio ou lâmpada de fenda”.

O único tratamento para catarata é o cirúrgico. O objetivo da cirurgia – simples, rápida e feita sob anestesia local – é substituir o cristalino danificado por uma lente artificial que recupera a função perdida. 

Estima-se que, em cada ano, se realizem mais de 20 milhões de cirurgias de catarata em todo o mundo, tornando este procedimento cirúrgico num dos mais frequentes.

De acordo com o oftalmologista Rui Martinho, ainda que qualquer cirurgia comporte alguns riscos – “o risco de uma infeção, por exemplo” - , “esta cirurgia é considerada hoje altamente eficaz” e adianta que todos os casos podem ser tratados cirurgicamente. “É claro que quando a catarata é muito madura a possibilidade de complicações é maior”, afirma

No entanto, “hoje não se espera, como antigamente, que as pessoas ceguem para serem operadas”.

No campo das cirurgias, o especialista admite que, nas últimas décadas, se tem assistido a “um avanço extraordinário”.

“Hoje em dia opera-se uma catarata em ambulatório, com anestesia local (gotas), por uma incisão à volta de dois milimetros, e pela mesma incisão, que não leva pontos, introduz-se a lente intraocular”, explica acrescentado que esta lente, para além de ir substituir a lente natural, “pode corrigir também o defeito refractivo que o doente tem: a miopia, a hipermetropia, o astigmatismo e até a presbiopia” (vulgarmente conhecida por vista cansada).

Atualmente, a técnica mais usada para tratar a catarata é a facoemulsificação “que utiliza ultrassons para «desfazer» a catarata e permitir que seja retirada por uma incisão muito pequena”.

Segundo o especialista, esta é a técnica mais usada em todo o mundo porque, por um lado é “altamente eficaz”e , por outro, apresenta uma boa relação custo-eficácia.

A verdade é que, se antes da introdução das técnicas de facoemulsificação a cirurgia da catarata e a implantação de lentes intraoculares se realizava através de um procedimento cirurgico manual, hoje em dia, com a inovação tecnológica desenvolvida nesta área, a utilização de um laser especial – o Femtosegundo –, por exemplo, veio ajudar o cirurgião a obter melhores resultados  reduzindo o tempo de intervenção e minimizando riscos.

“A cirurgia a laser de Femtosegundo consiste em efetuar, com um laser especial, alguns dos passos que até agora tinham que ser feitos pelo cirurgião oftalmologista, com recurso a pinças e bisturis”, explica Rui Martinho que destaca entre as suas mais-valias “a precisão, a reprodutibilidade  (isto é, esses passos cirúrgicos são feitos sempre de forma igual) e segurança”.

Sendo uma intervenção simples e segura o doente só tem de se “preocupar” com os cuidados pós-cirurgicos que consistem “fundamentalmente em colocar as gotas (colírios) que são prescritas no pós operatório e evitar esforços físicos mais violentos”.

Importa ainda referir que, apesar de nunca mais vir a sofrer de catarata depois de efetuada a cirurgia pode, no entanto, com o passar do tempo, voltar a sofrer alterações na sua visão.

“O que pode acontecer, e acontece muitas vezes, é o seguinte: quando tiramos a catarata na cirurgia deixamos dentro do olho o saco que envolve a catarata – saco capsular -, que é o saco que vai segurar a lente intraocular. Este saco, com o tempo, nuns doentes mais cedo, noutros mais tarde, pode perder a transparência e a visão pode voltar a baixar”, justifica o especialista em oftalmologia.

“Nessa altura, faz-se com um laser diferente – laser YAG – uma abertura nessa cápsula e o doente volta a readquirir a boa visão que tinha após a cirurgia. É um procedimento simples, que demora 1 a 2 minutos, feito com o doente sentado numa lâmpada de fenda”, explica. No entanto, admite que com a evolução que esta técnica tem tido, “provavelmente, num futuro próximo, este passo deixará de ser necessário”.

Rui Martinho vai ser um dos médicos convidados para um encontro que reunirá, no próximo dia 8 de Julho em Coimbra, oftalmologistas ibéricos especialistas em catarata que vão partilhar experiências a respeito da evolução destas técnicas cirúrgicas.

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
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