Sobrevivente escreve sobre cancro

«Descobrir que se tem cancro nunca é fácil»

Quando a minha família descobriu que eu tinha cancro, percebeu, imediatamente, duas coisas – que o cancro não seria a nossa maior tragédia e que o telefone iria tocar insanamente.

Descobrir que se tem cancro nunca é fácil. No meu caso, tive uma reação bastante pacífica quando recebi a notícia porque não percebi que “estava chocada”. Aliás, não percebi que estava doente. Tinha apenas 13 anos e não estava muito atenta na consulta (estávamos nas urgências do hospital de Leiria) - já era muito tarde, tinha fome, tinha sono, tinha mais no que pensar. Sei, com isto, que desiludo um bocadinho as pessoas quando me perguntam: “como reagiste quando soubeste que tinhas cancro?”. Simplesmente, não reagi. Não reagi porque não percebi patavina do que se estava a passar.

Fiquei internada no hospital de Leiria e, uns dias depois, já estava “efetiva” no hospital de Coimbra. As férias em Leiria (onde estive apenas a soro e a beijinhos) terminaram e a coisa tornou-se séria e oficial: Linfoma não-hodgkin era o diagnóstico.

Entrei ainda sem perceber qual seria o meu papel. O que me estaria destinado. Entrei sem acreditar que teria de ficar. O enfermeiro disse-me que aquela ali era a minha cama e que a minha mãe teria de ir embora. Naquela noite, ela não poderia ficar comigo. Por mais que o enfermeiro me sorrisse e me mostrasse “a casa”, para que eu não tivesse tanto medo, estava muito assustada. As paredes, as cores, os cheiros…eram tão distantes. Tão frios. E eu estavam tão longe da minha casa.  

Tive de ficar. Vi a minha mãe ir embora (disse-me adeus quase sem voz porque a trazia travada na garganta), sentei-me na minha cama e percebi que as coisas tinham mudado. Para sempre.

Depois, foi como se de um filme se tratasse. Depressa, inacreditável, irreal. Eu fui acompanhando a história, muitas vezes sem me aperceber que estava dentro dela. Mas não haveria grande coisa a fazer – aceitar era a única coisa opção sensata (isso e desligar o telefone de casa, que tocava insanamente). Aquela era nossa nova realidade e nós seríamos incríveis a encará-la. Disso, também tínhamos a certeza.

Ao aceitarmos que a nossa vida tinha mudado, cada elemento da minha família, começou a agir como sabia. A minha mãe, sempre tão resiliente e forte, as minhas irmãs, despachadas e divertidas, o meu pai, emocional e frágil. Cada um foi o que soube ser e fez o que pode fazer.

Tentámos, desde o início, que o cancro não fosse a nossa maior tragédia. Não poderia ser. Os meus pais não permitiriam que as nossas gargalhadas acabassem por ali e era preciso que a nossa vida não mudasse drasticamente. Continuei a frequentar a escola, continuei a falar pelos cotovelos, continuei a embirrar com as minhas irmãs, continuei a ser feliz, despenteada, desbocada e grata. As coisas mudaram sim, mas não necessariamente para pior.

A minha personalidade, apesar de já bastante vincada (e insuportável em algumas coisas) ainda estava a ser ajeitada, ajustada. Eu estava a crescer e o cancro era o meu educador principal. Cresci numa história de crescidos, cresci a brincar mas a saber falar de morte, cresci com sonhos mas sem fazer planos, cresci otimista mas a ter noção da efemeridade da vida. Cresci com pressa de tempo, a correr atrás do tempo.

Cresci e fiquei bem. Entrei em remissão da doença e os meus pais respiraram de alívio. Correção – e os meus pais, voltaram a respirar. Mas o pós-cancro, que se esperava ser mais fácil do que o vivenciar da doença, foi, aliás, o mais difícil de tudo. Em apenas um ano tinha acontecido tanta coisa que, ao percebermos que o pior já tinha passado, todos os medos, todas as dúvidas, todos os traumas, todas as perdas vivenciadas nessa fase, vieram ao de cima.

A médica disse que já “já estava tudo bem” e foi aí que me permiti sofrer. Sei que esse sofrimento veio com um “atraso” mas ainda não tinha tido tempo para sentir. Ainda não tinha tempo para encaixar tantas transformações, tantas mudanças. E a adolescência batia-me à porta. A terrível adolescência que, vivida com um cancro à mistura, é mais difícil de compreender do que letra de médico.

O tempo passou. Continuei a procurar entender-me, fiz as pazes com o meu passado e afastei-me do mundo do cancro porque queria era viver. Mas em 2013, percebi que afinal não estava assim tão bem resolvida. Que ainda havia um trabalho a fazer. Que talvez tivesse um contributo a dar, ou não tivesse nada para dar, mas sim para aprender. Criei então o projeto Cancro com Humor onde, com a ajuda do humor, da descontração, da simplicidade, pus-me a falar de dor e de amor, com a mesma facilidade. Era preciso falar de cancro de outra maneira. Era preciso que deixássemos de tremer. Com a ajuda da escrita, da comunicação, comecei a contar a minha história e a partilhar a história dos outros, com a cabeça levantada e a gargalhada na voz. Era preciso rir disto. Era preciso falar sem medo mas sem nunca deixar de chorar. Era preciso exteriorizar. Lancei um livro, uma associação, uma banda desenhada, uma peça de teatro, lancei-me ao mundo. Comecei a dar palestras pelo país, a aceitar falar e escrever sobre cancro e onde a desmistificação era a palavra de ordem. Amei durante o Cancro com Humor. Fui cuidadora. Perdi para o cancro, também. Caí e levantei-me, vezes sem conta.

E em 2016 decidi escrever o segundo livro. Saiu agora. É um livro de autor, feito com uma maturidade e vulnerabilidade que ainda não tinha existido. Esta é uma Marine que olha para o cancro desde os 13 anos de idade mas que o vê fora de si. Nunca dentro. Não é dela, não o quer. Mas é preciso saber que ele está ali ainda para tanta gente e que é urgente saber que é possível ser feliz no caos.

Marine Antunes é autora dos livros Cancro com Humor e Cancro com Humor 2 

Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Foto: 
Pixabay e Marine Antunes