Opinião

As birras na criança: quais as estratégias para lidar com elas?

As birras fazem parte do desenvolvimento normal de qualquer criança na construção da sua identidade e são o resultado da discrepância entre a necessidade de procura da sua autonomia e da dependência dos pais. Dado que tais comportamentos são sempre objeto de tensão e frustração para os pais é essencial que estes conheçam e saibam utilizar estratégias para as saber ultrapassar com o mínimo de desgaste possível, pois como sabemos educar uma criança é feito de progressos, regressões, derrotas e vitórias. É, pois, tentado neste estudo de pesquisa compreender e apresentar estratégias para a resolução das birras.

Todos nós já experienciamos uma birra do filho ou de uma outra criança. Estes episódios mais ou menos frequentes, imprevisíveis e de difícil controlo, apesar de fazerem parte de um desenvolvimento psicoafectivo normal e saudável, devido ao pensamento egocêntrico da criança, podem tornar-se numa fonte de preocupação e angústia para os pais.

Definição

As birras são uma expressão de uma multiplicidade de sentimentos, caracterizadas por uma grande variedade de comportamentos, como o choro, gritos, grande agitação motora, sapatear, lançar objetos ou rebolar-se no chão e são sempre a manifestação de um episódio emocional.

Episódios que podem ocorrer em qualquer lugar e em qualquer contexto que a criança esteja.

As birras podem ser definidas como episódios extremos de angústia e/ou raiva1 ou como episódios emocionais breves, mas intensos e são caraterizadas por serem explosivas, impulsivas e por demonstrarem emoções descontroladas2. São sempre reações emoções desajustadas e temporárias a determinadas situações e surgem quando a criança não consegue controlar os seus impulsos, resultando numa perda de controlo e desrespeito por regras comportamentais previamente aceites.

Epidemiologia

As birras surgem em igual proporção nos dois sexos e em crianças com idades compreendidas entre o ano e meio e os quatro anos, havendo autores que defendem que pode ir até aos cinco anos de idade, com um pico entre os dois e os três anos3. Estas birras são típicas do período de desenvolvimento em que a criança está a adquirir autonomia e a dominar o meio ambiente, razão pela qual é por vezes considerada a primeira infância4. Assim entre os dois e os três anos de idade cerca de 1/5 das crianças fazem birras pelo menos uma vez por dia e mais de metade pelo menos uma vez por semana3.

Relativamente à duração das birras, a maioria dos autores defende que ela dura um geral entre um e quatro minutos, havendo quem considere que podem durar até dezasseis minutos.

Manifestação

As birras envolvem duas emoções independentes, mas sobrepostas, a raiva e a angústia e surgem sempre após um evento precipitante (perder algo, não alcançar o que deseja, pretender um brinquedo, entre outros). A probabilidade de ocorrerem expressões físicas de raiva são na fase inicial e vão diminuindo.

Para melhor compreender a raiva quanto à sua intensidade, podemos dividi-la em três níveis. O nível mais elevado manifesta-se por gritos e pontapés, enquanto o bater e o adotar uma postura rígida são elementos mais variáveis5. Por outro lado, atirar objetos, empurrar, enquadram-se no nível intermédio, enquanto bater o pé e agitar as mãos definem o nível mais baixo5.

Quanto à angústia está associada ao choramingar, ao chorar, ao procurar conforto e ao deixar-se cair no chão5. Estes últimos dois tendem a aumentar ao longo da birra.

Pode-se concluir que as emoções estão associadas às cognições, ou seja, quando a criança percebe que irá ser contrariada pelos pais sente raiva, mas continua com a esperança de conseguir o que pretende. Quando percebe que não obtém os resultados pretendidos com raiva surge a angústia5.

Este tipo de comportamento de oposição desempenha um papel essencial na distinção e afirmação do “eu” em relação aos outros, desenvolvendo assim a autonomia2.

Causas

As birras nestas idades são a consequência lógica da falta de mecanismos para lidar com a frustração, associada a uma linguagem verbal ainda escassa, dificuldade no processamento da informação, incapacidade para entender o futuro e adiar as suas vontades e pouca capacidade de coping para lidar com os problemas e saber resolve-los.

As birras inicialmente são utilizadas com o intuito de atraírem sobre si a atenção dos pais/adultos e, posteriormente, quando já dominam melhor a linguagem falada, a partir dos três anos, como forma de manipulação dos adultos4.

Fatores desencadeantes

De entre os diversos fatores que favorecem o aparecimento das birras destacam-se o cansaço, o sono, a fome e certas situações como a refeição, a hora de deitar, as idas ao supermercado ou a falta de atenção3.

Sinais de alarme

Como foi referido as birras fazem parte do desenvolvimento psicoafectivo considerado normal da criança, onde a sua total ausência traduz um sinal de alarme, por ser o reflexo da existência de dificuldades a nível do processo de separação/individuação da criança. Assim, os pais devem ainda pedir ajuda a profissionais quando as birras aumentam de frequência, duração e intensidade e o seu controlo não é possível; sempre que durante a mesma a criança se magoe ou magoe alguém, destrua objetos/brinquedos, ocorra na escola e empeça a sua aprendizagem ou ainda quando os pais reagem com agressividade às birras4.

As birras como patologia do neurodesenvolvimento

Quando as birras persistem para além da idade considerada habitual podem acompanhar alguma perturbação do neurodesenvolvimento. Nomeadamente o défice cognitivo, perturbação da linguagem, perturbações do espetro do autismo, perturbação de défice de atenção e hiperatividade, perturbações da visão e audição e as dificuldades escolares6. Podem ainda fazer parte do quadro clínico de algumas síndromes de causa genética, como a síndrome de Prader-Willi ou Síndrome do X Frágil7.

Prevenção

As birras causam enorme constrangimento aos pais, sobretudo quando acontecem em lugares públicos. O que faz a diferença é o modo como estes lidam com elas, podendo transformar birras esporádicas em frequente, pelo que devem ser aconselhados no sentido de adquirirem ferramentas para as saber controlar ou evitar. Sendo assim a melhor maneira de lidar com as crianças que fazem birras é evitar que elas surjam, para tal é essencial conhecer os fatores que as desencadeiam para os evitar.

Neste contexto deve ser respeitado as necessidades do sono da criança e se for caso disso devem fazer a sesta; evitar que sinta fome, respeitando os horários; os brinquedos/objetos “proibidos” não devem estar ao alcance da sua visão e devem ser adequados à sua idade, para não provocarem frustração; dar a possibilidade de escolha à criança, sempre que possível, a roupa, sapatos ou o tipo de alimentos e impor limites/regras, ou seja, avisar previamente que assim que termine o jogo, o programa de televisão ou a leitura da história vai para a cama dormir.

Intervenção

No início da birra, sempre que for possível, é essencial desviar a atenção da criança, deslocando-a para outro local (sair do supermercado ou ir para outra divisão da casa), para evitar o seu descontrolo emocional e sempre que esta tem tendência para bater com cabeça, evitar que tal aconteça para não se magoar, contendo-a3.

Uma vez iniciada a birra, existem alguns procedimentos básicos. Assim, é essencial manter a calma, afastar-se e ignorar esse mau comportamento, pois só assim ela vai entender que essa atitude não lhe confere qualquer privilégio. Evite ainda chamá-la à razão, castigá-la ou recompensá-la, pois tal facto vai exponeciar o seu descontrolo. Só uma vez a birra terminada explique com clareza que tal comportamento não a vai beneficiar em nada e como é importante haver regras pré-estabelecidas, não ameace, deve manter-se firme e aplicar o devido castigo e de imediato, para que esta associe o comportamento ao castigo.

Crianças que fazem birras difíceis, com o intuito de melhor planear a sua prevenção e controle, deve-se fazer um diário de ocorrências, onde será registado os fatores que as desencadeiam, o local onde ocorreu, a duração, a descrição de cada birra, as estratégias utilizadas no controlo e respetiva eficácia e o que ocorreu após a mesma.

Bibliografia:
1DANIELS, E; MANDLECO, B & LUTHY, BE (2012). Assessment, management and prevention of childhood temper tantrums. J Am Acad Nurse Pract; 24 (10): 569-73
2CORDEIRO, M (2011). O grande livro dos medos e das birras. Lisboa: Esfera dos livros.
3POTEGAL, M & DAVIDSON, RJ (2003). Temper tantrums in young children: 1. Behavioral composition. J Develop Behav Pediat. 24 (3): 140-7.
4HARRINGTON, RG. Temper tantrums: guidelines for parents. NASPResources, 2004. Disponível em. http://ww.nasponline.org [acedido em 25/10/2018].
5POTEGAL, M [et al.] (2009). Rages or temper tantrums? The behavioral organizational, temporal característics and clinical significance of abgry-agitated outbursts in child psychiatry inpayients. Child Psy Hum Develop; 40: 621-636
6KASTNER, T & WALSH, K (2005). Mental Retardation: behavioral problems. In: PARKER, S; ZUCKERMAN, B & AUGUSTYN, M. Developmental and Behavioral Pediatrics: a handbook for primary care. Philadelphia, PA: Lippincott Williams and Wilkins. 52: 234-7.
7CASSIDY, SB & DRISCOLL, DJ (2008). Prader-Willi syndrome. Eur J Hum Genet. 17 (1): 3-13.

Mário Oliveira – Enfermeiro
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Foto: 
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