Artigo de opinião

Alterações da deglutição e acidente vascular cerebral

As alterações da deglutição (disfagia) afetam cerca de 50% dos indivíduos que sofrem de Acidente Vascular Cerebral (AVC). Deste 40% apresentam aspiração para a via aérea de forma silenciosa (sem tosse). A esmagadora maioria das vezes estas alterações são transitórias, em cerca de 80% recuperam parcialmente ou totalmente durante as duas primeiras semanas pós-AVC, mas cerca de 15% dos sobreviventes de AVC apresentam alterações da deglutição aos três meses pós-AVC.

As complicações associadas à disfagia são o risco aumentado de infeção, a pneumonia, a malnutrição, a desidratação, a institucionalização, a depressão, o prolongamento do tempo de internamento, o pior prognóstico de recuperação funcional, o aumento dos encargos com sistema nacional de saúde e morte.

Nas sociedades atuais a alimentação é responsável por muito mais do que satisfazer uma necessidade fisiológica. É “à volta da mesa” que a nossa sociedade festeja os grandes acontecimentos da vida: casamentos, batizados, aniversários, convívio com amigos e família, almoços e jantares de trabalho, etc. Alterações da deglutição além das implicações diretas sobre a saúde (como descritas superiormente) acarretam também um isolamento, depressão e menor participação na vida familiar e social diminuindo muito a qualidade de vida do sobrevivente e cuidadores.

As alterações da deglutição pós-AVC devem estar a cargo de uma equipa de reabilitação multidisciplinar bem treinada e coordenada por médico especialista de Medicina Física e de Reabilitação. O rastreio da disfagia deve ser feito o mais precoce possível, idealmente no próprio Serviço de Urgência, antes de ser dado ao sobrevivente de AVC qualquer medicação, alimentação ou hidratação. Na realidade portuguesa a esmagadora maioria das vezes este rastreio é efetuado à entrada da Unidade de AVC ou da enfermaria. Este rastreio pode ser efetuado por enfermagem, terapia da fala ou médico. Após um rastreio positivo deve ser efetuada uma avaliação formal de todo o aparelho da deglutição para que se possa estabelecer um programa de reabilitação individualizado. Esta avaliação formal poderá ser efetuada por terapia da fala ou médico fisiatra. Ao mesmo tempo deve ser efetuado um exame complementar de diagnóstico que permita ter total segurança no tipo de alimentação e hidratação a implementar a cada doente em particular. Esse exame poderá ser uma nasofaringoscopia deglutória (quando disponível) e efetuada por otorrinolaringologista ou uma vídeofluroscopia efetuada por médico fisiatra. Se as alterações da deglutição persistirem por mais 5-6 dias deverá ser realizada uma videofluroscopia (caso ainda não tenha sido feita) de modo a melhor esclarecer a fisiopatologia da disfagia a fim de melhor orientar o tratamento. O tratamento específico da disfagia é depois executado pela terapia da fala. Em caso de ser necessário alterar as consistências, texturas e/ou volumes da alimentação ou hidratação o nutricionista deve ser chamado a intervir. Em Portugal o médico mais capaz de retirar o máximo de informação com o mínimo de radiação de uma videofluroscopia será o médico fisiatra, pelo que defendo que deverá ser o médico responsável pela realização do exame. Além desta responsabilidade, o fisiatra, deve ainda coordenar toda a equipa de reabilitação para que todos os diferentes profissionais entrem atempadamente no processo de reabilitação a fim de evitar as nefastas consequências descritas superiormente e para que todo o potencial da reabilitação da deglutição seja atingida.

 
Dr.ª Bárbara Moreira da Cruz
Fisiatra
Hospital da Senhora da Oliveira, Guimarães

Fonte: 
RXConsulting
Nota: 
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